Electric Blue Experience reimagina os Cranberries e anuncia seis shows na Irlanda em 2027
Formada em Turim em 2026, a banda italiana reúne quatro músicos, interpreta o repertório dos Cranberries com identidade própria e prepara uma turnê pela terra natal de Dolores O’Riordan.
Por Eric Rudhiery | Tradução e edição: Redação Auctoritas Notícias.
Homenagear uma banda não exige repetir cada arranjo ou imitar a voz de quem marcou suas gravações. Para os músicos da Electric Blue Experience, interpretar as canções dos Cranberries significa preservar o que elas comunicam e, ao mesmo tempo, encontrar novas possibilidades de expressão. Essa ideia orienta o grupo formado em Turim, na Itália, em 2026.
O projeto reúne Michela Gallia, na voz e na guitarra; Orlando Barbuto, no baixo e nas guitarras; Elvis D’Elia, na bateria; e Giorgio Giardina, responsável pela guitarra, pelos arranjos e pela produção. Embora a formação seja recente, Giorgio e Elvis interpretam o repertório dos Cranberries desde 2018 e acumulam experiência em apresentações na Itália e em outros países europeus.
Em entrevista escrita ao Auctoritas Notícias, o quarteto falou sobre as escolhas artísticas do projeto, a influência de Dolores O’Riordan e a reação do público às novas interpretações. A banda também compartilhou uma novidade de sua agenda: seis apresentações programadas para março de 2027, na Irlanda, em torno das celebrações de São Patrício.

Como surgiu a ideia de reimaginar as músicas dos Cranberries e onde vocês estabelecem o limite entre respeito e liberdade de interpretação?
Electric Blue Experience: “Em determinado momento, fizemos uma pergunta que, para uma banda tributo, pode soar quase como uma provocação: qual é o sentido de continuar tocando essas canções se deixarmos de nos surpreender com elas?”
“Giorgio e Elvis convivem com o repertório dos Cranberries desde 2018. Foram oito anos, centenas de shows, viagens e apresentações na Itália e em outros países europeus, inclusive na Irlanda. Uma experiência extraordinária, mas que também traz o risco de transformar algo que amamos em hábito.”
“Quando criamos a Electric Blue Experience, em 2026, ao lado de Michela e Orlando, percebemos que não queríamos simplesmente recomeçar com uma nova formação. Queríamos recuperar aquela curiosidade que nos leva a pegar um instrumento e perguntar: e se tocássemos esta música de outra maneira? Nos primeiros ensaios, Michela não encontrou três músicos à procura de uma cantora para reproduzir um espetáculo pronto. Éramos quatro pessoas procurando um som. Essa diferença mudou tudo.”
“Não nos interessa alterar uma canção para mostrar o quanto somos bons. Queremos descobrir quantas possibilidades expressivas ela ainda guarda, mesmo depois de 30 anos. O nosso limite é o significado profundo da música. Podemos mudar o arranjo, o timbre, a dinâmica e a maneira como ela cresce no palco, mas não podemos trair o que conta. Para nós, respeitar não significa manter a música imóvel. Significa conhecê-la o suficiente para ter a coragem de mantê-la viva.”
Quais elementos das músicas vocês consideram intocáveis e quais podem ser transformados?
Electric Blue Experience: “O surpreendente nos Cranberries é que muitas canções parecem muito simples. Quando começamos a tocá-las de verdade, descobrimos um equilíbrio musical mais complexo do que imaginávamos.”
“Pensemos em Linger. É uma melodia reconhecida quase imediatamente, mas, sob sua aparente delicadeza, convivem desejo, insegurança e melancolia. Se a transformássemos em uma balada romântica comum, perderíamos algo essencial. Com Zombie acontece algo semelhante: é fácil se deixar levar pela força das guitarras e da bateria, mas seria um erro esquecer que aquela intensidade nasce de um protesto contra a violência, e não da simples vontade de tocar alto.”
“Para nós, os elementos intocáveis são o significado das palavras, a identidade melódica, as tensões emocionais e a alternância entre fragilidade e energia. Também não podemos esquecer a contribuição de Noel Hogan, Mike Hogan e Fergal Lawler. Parte da magia dessas canções está justamente na capacidade dos músicos de deixar espaço, em vez de preenchê-lo o tempo todo.”
“O restante pode se tornar objeto de experimentação. Podemos mudar o som das guitarras, dar outra cor ao baixo, destacar uma passagem rítmica ou explorar atmosferas acústicas. Orlando alterna o baixo e as guitarras conforme o arranjo pede. Elvis trabalha muito com a dinâmica e sabe que, às vezes, o gesto musical mais poderoso é justamente não tocar. Gostamos também de músicas como Daffodil Lament e Ridiculous Thoughts, que criam tensão sem virtuosismo desnecessário. Se uma ideia nossa ofusca a canção em vez de iluminá-la, provavelmente não é uma boa ideia.”

De que maneira a voz e a personalidade de Dolores O’Riordan influenciam o trabalho de vocês, mesmo sem buscar imitá-la?
Electric Blue Experience: “Existe algo na voz de Dolores que vai além da técnica, do timbre e até da sua capacidade extraordinária de ser reconhecida. Quando ela cantava, tínhamos a sensação de que não havia distância entre aquilo que sentia e o que chegava a quem a ouvia.”
“Ela podia ser extremamente delicada e, no instante seguinte, quase feroz. Conseguia expressar vulnerabilidade sem parecer fraca e raiva sem perder a humanidade. Essa combinação a tornava especial. Havia também a maneira como usava as palavras, prolongava uma sílaba ou interrompia uma frase, transformando a voz em algo que parecia vir diretamente de sua história pessoal.”
“São características impossíveis de reproduzir de verdade. Talvez nem fosse justo tentar. Michela encara esse repertório com a consciência de que a voz de Dolores pertencia somente a Dolores. Copiar o sotaque, o fraseado ou as inflexões mais conhecidas poderia transformar uma emoção em um exercício técnico. Por isso, ela entra nas canções com a própria sensibilidade, a própria voz e a própria experiência.”
“Isso muda também a maneira como tocamos. Não precisamos construir um acompanhamento para uma imitação. Podemos ouvir Michela, reagir à sua interpretação e modificar juntos a intensidade de uma passagem. Torna-se um diálogo entre quatro músicos. Talvez a lição mais sincera deixada por Dolores seja justamente esta: uma identidade artística não nasce de tentar parecer outra pessoa, mas da coragem de expressar quem você é. A maneira mais honesta de homenagear uma voz irrepetível é não fingir que ela pode ser repetida.”
Como o público reage às novas interpretações? Vocês encontram fãs antigos e ouvintes de outras gerações?
Electric Blue Experience: “O público dos Cranberries conhece profundamente essas músicas. Para muitas pessoas, não se trata apenas de canções. São lembranças, amores, viagens, momentos da adolescência e pessoas que talvez já não façam parte de suas vidas. Quando alguém escuta Linger ou Ode to My Family, muitas vezes reencontra algo de si mesmo. Isso cria uma grande responsabilidade.”
“Há ouvintes muito ligados às gravações originais e outros mais dispostos a se surpreender. Queremos conversar com ambos, sem pedir a ninguém que abandone a relação pessoal que tem com essas músicas.”
“Michela gosta especialmente de um instante, quando começamos a tocar Dreams. O público reconhece a canção quase antes de ela começar de verdade. A partir dali, parece que a música deixa de pertencer apenas a quem está no palco e se transforma em uma experiência compartilhada. É o que mais nos interessa na música ao vivo: algo que não se consegue simplesmente apertando o botão de reprodução de um disco.”
“Quanto às novas gerações, nos fascina a possibilidade de que alguém conheça essas canções pela primeira vez em um de nossos shows. Não temos como saber quantos jovens realmente descobrem os Cranberries por nosso intermédio, mas seria uma satisfação enorme. Gostaríamos que alguém viesse nos ouvir e voltasse para casa com vontade de conhecer os álbuns originais. Talvez o elogio mais bonito fosse: vim ouvir os Cranberries e descobri também uma banda.”
Que aspecto do legado de Dolores vocês gostariam que o público brasileiro compreendesse melhor?
Electric Blue Experience: “Gostaríamos que, além da voz extraordinária, fosse reconhecida cada vez mais a grandeza de Dolores como compositora. Ela não era apenas uma cantora identificável depois de três notas. Era alguém capaz de transformar sentimentos íntimos e inquietações coletivas em músicas que milhões de pessoas, em lugares distantes do mundo, sentiriam como suas.”
“Ode to My Family e Zombie mostram isso de maneiras diferentes. Na primeira, encontramos a necessidade de pertencimento, a memória e a nostalgia da família. Na segunda, a dor se torna denúncia e a música enfrenta abertamente a violência. Ainda assim, ambas parecem nascer do mesmo lugar, de uma sinceridade expressiva rara. Dolores não separava por completo a fragilidade da força. Fazia com que as duas convivessem.”
“Essas canções nasceram na Irlanda, em um contexto cultural específico, feitas por jovens que certamente não imaginavam a distância que sua música percorreria. Hoje, somos quatro músicos italianos que as reinterpretam. Em março de 2027, temos planos de levá-las novamente aos palcos irlandeses durante o período de São Patrício, enquanto conversamos sobre elas com um jornalista brasileiro do outro lado do oceano.”
“É uma bela demonstração de como a música atravessa línguas, gerações e fronteiras sem perder o significado. Não pretendemos representar Dolores nem acreditamos ter alguma missão especial. Somos músicos que amam profundamente o que ela criou com os Cranberries. Se conseguirmos fazer uma única pessoa ouvir essas canções com outros ouvidos, já estaremos felizes. O verdadeiro legado de uma grande artista não é apenas aquilo que ela deixou, mas aquilo que continua fazendo nascer nos outros. Quem sabe um dia possamos compartilhar tudo isso também com o público brasileiro, não por uma tela, mas em um palco.”
Além das reflexões sobre o repertório, a Electric Blue Experience antecipou ao Auctoritas Notícias o planejamento de seis apresentações na Irlanda, em março de 2027. Segundo a banda, os shows estão previstos para os dias 12 e 21, em Dublin; 13, em Thurles; 14, em Naas; 19, em Ballycotton; e 20, em Mitchelstown.
A viagem tem um simbolismo particular para o grupo: levar à Irlanda, durante as comemorações de São Patrício, novas interpretações de músicas que surgiram naquele país. A agenda informada pelos músicos é apresentada como programação prevista para 2027.
Sobre a Electric Blue Experience
Criada em Turim, em 2026, a Electric Blue Experience é formada por Michela Gallia (voz e guitarra), Orlando Barbuto (baixo e guitarras), Elvis D’Elia (bateria) e Giorgio Giardina (guitarra, arranjos e produção). Giorgio e Elvis interpretam o repertório dos Cranberries desde 2018, enquanto os três instrumentistas também compartilham experiências na banda de composições próprias Proclama. Em 2015, os músicos abriram um show de Passenger no Pistoia Blues Festival. Michela reúne mais de uma década de atuação em apresentações ao vivo.
O projeto se apresenta sob o conceito The Cranberries Reimagined, com arranjos que preservam o caráter emocional das composições originais sem buscar uma reprodução literal. Em 2026, o grupo apresentou sua interpretação de Animal Instinct.
Site oficial: https://www.electricblueexperience.it/en
Instagram: https://www.instagram.com/electricblueexperience/
Entrevista escrita concedida pela Electric Blue Experience ao Auctoritas Notícias em outubro de 2026 e biografia enviada pela banda. Informações sobre a turnê fornecidas diretamente pelos músicos.
Fotografias e pós-produção: Matteo Bertolino. Tradução, revisão e edição: Eric Rudhiery Albuquerque e Redação Auctoritas Notícias.


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