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Entre a sala de aula e os quadrinhos, Rafael Barbosa transforma histórias em espaço de reflexão

Foto do escritor: Eric Rudhiery
Eric Rudhiery
14 de set.
5 min de leitura

Professor e quadrinista gaúcho concilia o magistério com a produção independente de HQs e apresenta em 2026 os primeiros volumes de ECOS, seu primeiro projeto autoral em quadrinhos.


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Os quadrinhos fazem parte da história de Rafael Barbosa desde muito antes de ele começar a publicar seus próprios trabalhos. Professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), escritor e quadrinista, o gaúcho encontrou na produção independente um caminho para retomar uma paixão iniciada ainda na infância e transformá-la em uma produção artística marcada pela liberdade criativa.


A ligação com esse universo começou dentro de casa. O pai de Rafael colecionava quadrinhos e também era quadrinista, tendo publicado pela Grafipar, Martins Livreiro e, principalmente, de maneira independente por meio de fanzines.


“Meu pai tinha coleção de quadrinhos e também era quadrinista, publicou na Grafipar, Martins Livreiro, mas principalmente de forma independente com fanzines. Então, desde muito cedo tive contato com este mundo e sempre quis fazer quadrinhos também - eu já desenhava desde muito novo.”


Durante a adolescência, Rafael chegou a produzir histórias em quadrinhos nos anos 1990, embora nenhuma tenha sido publicada naquele período. A trajetória profissional acabou conduzindo-o ao magistério e os quadrinhos ficaram temporariamente em segundo plano.


Anos depois, uma reorganização pessoal abriu espaço para a retomada daquele antigo projeto.


“Depois que fiz uma reorganização na minha vida, voltei a estudar desenho e quadrinhos e desde 2022 venho publicando meus trabalhos sistematicamente em coletâneas e, neste ano, com meu primeiro trabalho autoral.”


A produção artística de Rafael hoje precisa dividir espaço com sua atividade profissional como professor. Essa condição, segundo ele, apresenta uma relação aparentemente contraditória: o magistério oferece a estabilidade necessária para produzir com liberdade, mas reduz o tempo disponível para transformar ideias em páginas.


“A minha produção de quadrinhos existe nos intervalos onde estou dando aulas como professor. Então, o trabalho independente me permite desenvolver quadrinhos com os temas que eu quero e, principalmente, no prazo que eu puder.”


Essa independência permite ao quadrinista decidir quais histórias deseja contar sem depender da produção artística como sua principal fonte de renda.


“Meu trabalho como professor me traz tranquilidade financeira para só fazer as HQs que eu quero, mas ao mesmo tempo, não me dá tanto tempo para desenvolvê-las. Quando eu me aposentar do magistério, imagino que fique um pouco mais fácil, mas no momento é o que temos.”


Mais do que duas ocupações paralelas, porém, educação e quadrinhos se encontram na maneira como Rafael compreende seu próprio trabalho.


“O Rafael professor e o Rafael quadrinista são a mesma pessoa. Eu gosto de contar boas histórias e creio que isso se reflete em ambas as áreas.”


O objetivo, segundo ele, é produzir algo que permaneça com o público depois do contato inicial, seja dentro de uma sala de aula ou diante das páginas de uma história.


“Meu objetivo é sempre trazer algo que possa ficar um pouco mais com a pessoa, tanto quando dou uma aula, como quando alguém lê algo que eu escrevo e/ou desenho.”


Essa aproximação também aparece nos temas que atravessam sua produção.


“Acredito que os temas que me são caros na educação, como respeito às diferenças, valorização da diversidade, cooperação, entre outros, também permeiam minha produção artística.”


Ao analisar o cenário brasileiro, Rafael considera que a produção independente envolve uma estrutura muito mais ampla do que simplesmente escrever ou desenhar uma HQ. Distribuição, logística, divulgação, custos e o próprio hábito de leitura estão entre os desafios enfrentados pelos autores.


“É um tema com muitos braços, que vão desde a distribuição, logística, mídia, valores empregados na indústria até o próprio (pouco) hábito de leitura do brasileiro e certamente não o esgotaremos aqui.”


Apesar das dificuldades, ele enxerga no modelo independente uma alternativa importante para os artistas.


“Por todas essas questões, o quadrinho independente acaba sendo uma saída valiosa, tanto pelo ponto de vista artístico, que é mais livre aqui, como também do financeiro, visto que a ‘mordida’ acaba sendo menor quando se centraliza tudo no autor.”


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Essa centralização, entretanto, também significa acumular responsabilidades.


“Claro que, pelo mesmo motivo, isso também acaba sendo um obstáculo, já que sobrecarrega o autor - que muitas vezes só queria ficar lá no seu cantinho, fazendo seu gibi.”


Nos últimos anos, Rafael identifica dois movimentos que contribuíram para ampliar as possibilidades dos quadrinistas independentes brasileiros: o crescimento dos eventos ligados à cultura geek, especialmente aqueles que mantêm espaços destinados aos artistas, e a expansão dos editais públicos de incentivo à cultura.


“Nos últimos tempo dois pontos ajudaram demais: o aumento dos eventos geek - especialmente aqueles com artists valley específicos para quadrinistas - pelo país e também o incremento de editais para cultura que surgiram nos últimos anos como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo.”


Para o quadrinista, “esses dois fatores me parecem ter favorecido demais a cena de quadrinhos independente no Brasil.”


Natural de Bagé (RS) e radicado em Pelotas há 37 anos, Rafael já possui uma trajetória que passa tanto pela literatura quanto pelos quadrinhos.


Em 2017, lançou O lobo da lua alta, sua estreia no horror em prosa. Nos anos seguintes, participou como roteirista e/ou desenhista de diferentes coletâneas, incluindo Inko, dos volumes 7 ao 13; Terror universal; Contos insólitos; Loja de horrores; Lambari #2, #3 e #5; e Almanaque Gibi de Terror #3. Em 2026, também participa da coletânea internacional Gods Untold #3, da Paganini Comics.


Arquivo pessoal
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Neste ano, entretanto, sua trajetória ganhou um capítulo especialmente importante com a publicação dos dois primeiros volumes de ECOS, seu primeiro projeto autoral em quadrinhos.


“Em 2026 eu publiquei meu primeiro projeto autoral em quadrinhos, os dois primeiros volumes da coletânea ‘ECOS’, financiados por edital da Lei Aldir Blanc, em 2025.”


Depois da produção, chegou o momento de apresentar o trabalho aos leitores.


“Estou levando estes dois trabalhos para eventos agora - no final do ano, estarei com uma mesa no Festival Internacional de Quadrinhos, o FIQ.”


Os dois volumes de ECOS estão disponíveis gratuitamente para leitura na plataforma Fliptru. O primeiro volume também ganhou uma versão em formato de “audiogibi”, disponibilizada no YouTube.


Enquanto divulga ECOS, Rafael já trabalha no planejamento das próximas produções.


Uma delas terá o quadrinista como roteirista de uma biografia romanceada envolvendo um grande atleta. A identidade do personagem ainda não pode ser divulgada.


“Tenho programado dois trabalhos, um como roteirista de uma biografia romanceada de um grande atleta (ainda faltam detalhes, não posso divulgar mais que isso) e também desenhar uma HQ grande sobre um famoso true crime aqui do Rio Grande do Sul (também ainda não posso revelar muito mais que isso).”


A dimensão dos projetos significa que ambos deverão ocupar uma parcela considerável dos próximos anos.


“E como quadrinhos é um artesanato que leva muito tempo, só com esses dois projetos, já devo ter trabalho garantido pelos próximos dois anos...”


Para alguém que precisa conciliar a produção artística com a rotina do magistério, talvez o principal desafio não esteja justamente na ausência de histórias, mas na quantidade delas esperando a oportunidade de chegar ao papel.


Rafael resume essa relação em uma frase:


“As ideias são muitas; o tempo para realizá-las é que não favorece. Mas seguimos, sempre em frente.”


Arquivo pessoal
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Sobre o professor:

Rafael Barbosa é professor do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), nasceu em Bagé (RS) e está radicado em Pelotas há 37 anos. Em 2017, lançou O lobo da lua alta, sua estreia no horror em prosa.


Nos quadrinhos, participou como roteirista e/ou desenhista das coletâneas Inko (volumes #7 ao #13), Terror universal, Contos insólitos e Loja de horrores, da Tábula Editora; Lambari #2, #3 e #5, de produção independente; e Almanaque Gibi de Terror #3, da CAQ. Em 2026, participa da coletânea internacional Gods Untold #3, da Paganini Comics. ECOS é seu primeiro projeto autoral em quadrinhos.


Instagram: @rbarbosa11

Behance: Rafael Barbosa — @rafaelbarbosa84


Notas da Redação:

As respostas, informações biográficas, fotografias e imagens utilizadas para a produção desta reportagem foram encaminhadas por Rafael Barbosa, via e-mail, à redação do Auctoritas Notícias. Matéria editada e revisada pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.

 
 
 

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