Entre memória, literatura e silêncio, Léo Mackellene transforma a própria vida em matéria de escrita
Escritor, pesquisador e doutor em Educação Brasileira construiu uma trajetória em que literatura, memória, infância e investigação histórica se encontram.

Para Léo Mackellene, escrever não é apenas produzir literatura. É organizar lembranças, interpretar experiências e procurar sentido na própria existência. Escritor, pesquisador e autor de mais de dez livros, ele construiu uma trajetória em que memória pessoal, literatura e investigação acadêmica frequentemente ocupam o mesmo território.
A relação é sintetizada pelo próprio escritor logo no início do texto encaminhado ao Auctoritas Notícias:
“A vida é literatura pura. A própria vida não é senão uma grande ficção.”
Ao refletir sobre a construção das histórias que contamos a respeito de nós mesmos, Mackellene recorre a referências como Pierre Bourdieu e Jacques Lacan. Mas sua reflexão não permanece apenas no campo teórico. Ela encontra origem na própria experiência familiar.
“Eu me criei num terreno muito fértil para isso. Tal qual Laércio, personagem do poeta alagoano Jorge de Lima, em seu ‘O banho das negras’, eu nasci numa família sem histórias. Era, no máximo, uma pequena coleção iconográfica de memórias avulsas, mas sem narrativa.”
Diante dessas memórias fragmentadas, escrever tornou-se também uma maneira de construir uma narrativa sobre si.
“Tive que aprender desde cedo a contar pra mim mesmo a minha própria história, um amontoado de memórias sobre mim pra ver se eu conseguia me explicar no mundo.”
Ao falar de sua história familiar, Mackellene descreve um ambiente formado por diferentes experiências culturais e afetivas. Para explicar a tentativa de reunir essas partes, utiliza a imagem do kintsugi, técnica japonesa na qual peças quebradas são restauradas destacando suas fissuras.

Filho de um pai que teve seis filhos, cada um com uma mulher diferente, e de uma mãe que, por diferentes circunstâncias, durante muito tempo viveu a vida do pai e esteve agregada às famílias de duas de suas tias, Mackellene afirma ter crescido em um verdadeiro multiverso cultural e epistêmico. Uma experiência que, segundo ele, o fragmentou profundamente e cujo quebra-cabeça ainda hoje procura remontar, numa imagem que aproxima de uma técnica japonesa: o kintsugi, arte de reparar peças de louça com uma amálgama de pó de ouro.
Essa relação com a memória ganhou uma dimensão material. Desde 2011, o escritor mantém uma coleção de diários que recebeu o nome de “Cadernos de Rascunhos”.
“São mais de vinte sketchbnooks em que registro pensamentos, sentimentos, acontecimentos marcantes dos dias, sonhos, pesadelos...”
Com o passar do tempo, a prática mostrou a ele outra possibilidade da palavra escrita.
“E foi esse conjunto de textos que veio, aos poucos, me mostrando o efeito terapêutico da escrita. Daí eu ter enxergado na ‘Escrita Terapêutica’ a possibilidade de desenvolver uma ferramenta auxiliar do processo de auto-análise.”
Essa experiência chegou também a Mato Grosso do Sul. Em outubro de 2025, Mackellene foi convidado para ministrar seu Laboratório de Escrita Terapêutica em Campo Grande, como parte da programação da 1ª Bienal do Pantanal.
Para ele, a dimensão confessional ocupa um lugar central em sua produção.
“Minha escrita, portanto, não é só intimista, é confessional.”
E é justamente a partir dessa característica que o escritor propõe uma interpretação particular sobre a própria palavra “livro”:
“E talvez seja justamente por isso que ‘livro’ se chame ‘livro’, pelo seu teor de ‘livramento’, pelo quanto nos ‘livramos’ de um pensamento ruminante ou de um sentimento regurgitante. A possibilidade de ressignificar memórias é sempre salvacionista.”
Em 2026, a trajetória editorial de Léo Mackellene completa duas décadas. Seu primeiro livro, O livro dos mais pequenos silêncios, foi publicado pela Mangues & Letras em 2006.
Desde então, sua produção passou por diferentes gêneros. Em 2017, publicou o romance Como gota de óleo na superfície da água, pela Radiadora.
Também desenvolveu uma coleção de livros-conto, projeto no qual cada publicação é dedicada a uma única narrativa.
Em 2018, Léo Mackellene publicou O homem do pau mais bonito do mundo, obra prefaciada pelo jornalista e escritor Xyco Sá e construída a partir de diferentes referências literárias e culturais. Entre elas estão o humor de Pedro Almodóvar em Fogo nas entranhas, o mergulho em uma nova teoria da alma humana presente no conto O espelho, de Machado de Assis, e a inspiração no título de O afogado mais bonito do mundo, conto de Gabriel García Márquez.
O ovo da serpente, lançado originalmente em 2019 e com segunda edição em 2020; e Incêndio na casa do imperador, de 2022, ambientado no Rio de Janeiro durante o incêndio do Museu Nacional, ocorrido em setembro de 2018.

A produção literária, portanto, percorre poesia, romance, conto, não ficção e trabalhos ligados à pesquisa, mantendo a memória como um dos elementos recorrentes de sua trajetória.
Outra vertente da produção de Mackellene nasceu das conversas dentro de casa.
Diálogos de João e Júlia, com ilustrações da aquarelista cearense Alice David, reúne perguntas e falas dos dois filhos do escritor entre si e também nas conversas com o pai desde a primeira infância.
A obra parte da compreensão de que crianças não são apenas receptoras das decisões e interpretações dos adultos, mas sujeitos capazes de elaborar perguntas, sentimentos e pensamentos sobre o mundo.
Em 2020, Diálogos de João e Júlia recebeu apoio da Lei Aldir Blanc para distribuição em todas as bibliotecas públicas e comunitárias do Ceará, alcançando, segundo o material encaminhado pelo escritor, 423 bibliotecas.
Mais recentemente, Mackellene recebeu um convite para transformar Diálogos de João e Júlia em audiobook. O projeto é das Escolas Criativas, da Quitanda Produções, ampliando a circulação da obra para um novo formato e alcançando também o público que consome literatura em áudio.
A memória que atravessa sua produção literária também ocupa posição central em sua trajetória acadêmica.
Léo Mackellene concluiu doutorado em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC), em cotutela com a Universidade de Lisboa (ULisboa). Sua pesquisa investigou, a partir de fontes históricas, o impacto da cultura letrada sobre povos de tradição oral na região da Serra da Ibiapaba, na divisa entre Ceará e Piauí.
O estudo concentrou-se nas etnias Tremembé, Tabajara e Potiguara e examinou documentos históricos relacionados à formação cultural do Brasil entre 1549 e 1939.
A tese recebeu um título que dialoga diretamente com questões presentes em sua obra literária: A memória do silêncio, concluída em 2025 e disponibilizada no repositório institucional da Universidade Federal do Ceará.
Segundo Mackellene, apesar do recorte histórico e geográfico específico, a investigação oferece elementos que podem contribuir para reflexões sobre outras regiões brasileiras.
Ao abordar os resultados de sua pesquisa, o escritor chama atenção para a permanência de estruturas culturais associadas ao processo de colonização.
“Chama-se assim justamente porque é esse ‘silêncio’ próprio aos espaços sociais da cultura letrada e que reveste bem a ideia coletiva de ‘indivíduo bem comportado’ que apaga a memória coletiva e cultural dos próprios indígenas e mantém viva a memória da colonização, além de certo sentimento de autodepreciação e subalternização tão comum aos povos colonizados.”
Literatura, memória pessoal, infância, pesquisa histórica e reflexão sobre a linguagem parecem convergir para uma mesma questão na trajetória de Léo Mackellene: compreender como as palavras participam da maneira pela qual interpretamos nossa própria existência.
Se os “Cadernos de Rascunhos” começaram como registros de pensamentos, sentimentos, sonhos e acontecimentos cotidianos, ao longo dos anos eles também ajudaram o escritor a perceber a palavra como instrumento de autoconhecimento.
“Eu fiz, por fim, da literatura minha principal ferramenta de auto-conhecimento: escrever é colocar a cabeça no lugar, afinal, as palavras são as engrenagens do pensamento, os mecanismos da mente.”
Depois de duas décadas de livros publicados e de uma trajetória acadêmica igualmente dedicada à memória, Mackellene retorna à ideia apresentada no início de seu relato.
“Porque, no fim, a gente descobre que a vida é literatura pura.”

Sobre o autor:
Léo Mackellene é doutor em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará, em cotutela com a Universidade de Lisboa, e mestre em Literatura e Práticas Sociais pela Universidade de Brasília (UnB), onde estudou a obra do escritor angolano José Eduardo Agualusa.
É autor de mais de dez livros publicados, entre obras literárias, trabalhos de não ficção e publicações resultantes de pesquisas nas áreas de memória oral e história cultural. Quatro de suas obras estão disponíveis para Kindle.
Entre seus trabalhos estão O livro dos mais pequenos silêncios, Como gota de óleo na superfície da água, O homem do pau mais bonito do mundo, O ovo da serpente, Incêndio na casa do imperador e Diálogos de João e Júlia.
Redes Sociais:
Instagram: @mackellene
Nota da redação:
As informações, declarações, dados biográficos, fotografias e imagens das obras utilizadas na produção desta reportagem foram encaminhados por Léo Mackellene, via e-mail, à redação do Auctoritas Notícias. Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.



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