top of page

Entre Brasil e Turquia, Adriane Rangel transforma poesia em ponte entre línguas e culturas

Foto do escritor: Eric Rudhiery
Eric Rudhiery
13 de set.
4 min de leitura

Poeta, escritora, tradutora e pesquisadora brasileira desenvolve projetos bilíngues, aproxima autores dos dois países e prepara novas obras inspiradas em memória, ancestralidade e pertencimento


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

A literatura entrou cedo na vida de Adriane do Espírito Santo Rangel. Criada em uma casa cercada por professoras e livros, ela afirma que nunca conseguiu separar completamente a experiência de leitora daquela que, mais tarde, construiria como poeta e escritora.


Hoje, essa trajetória atravessa não apenas gêneros literários, mas também idiomas e fronteiras. Fundadora da Editora Aksan, Adriane dedica-se há anos ao estudo da língua e da literatura turca e desenvolve trabalhos que aproximam culturalmente Brasil e Turquia.


“Me reconheço primeiro como poeta e depois como escritora”, conta. Um dos momentos decisivos de sua trajetória ocorreu quando percebeu que a poesia que escrevia para si mesma poderia dialogar com outra língua e outra cultura. O caminho resultaria em “A Istambul Em Mim”, seu primeiro livro de poesia autoral bilíngue em português e turco.


A aproximação de Adriane com a cultura turca nasceu de uma curiosidade ainda na adolescência. Ao ler romances de Jorge Amado, encontrou personagens chamados de “turcos”. Mais tarde, descobriu que muitos daqueles imigrantes eram, na realidade, libaneses que chegavam ao Brasil portando documentos expedidos pelo Império Otomano.


Anos depois, ao entrar em contato com a poesia escrita em turco, Adriane decidiu investigar a história literária do país, seus movimentos e as influências que ajudaram a formar aquela tradição.


A pesquisa ganhou uma direção específica: observar e comparar a poesia produzida por mulheres no Brasil e na Turquia.


Segundo Adriane, apesar da distância geográfica e cultural, surgiram semelhanças importantes. Temas como etarismo, violência doméstica, padrões estéticos e outras pressões enfrentadas pelas mulheres aparecem nas duas tradições literárias.


Dessa aproximação nasceram iniciativas como “Poesia Sem Fronteiras” e “Mulheres na Poesia”, voltadas ao intercâmbio cultural e à circulação de poetas brasileiros e turcos por meio de traduções e leituras nos dois idiomas.


Na produção autoral de Adriane, três elementos aparecem de maneira recorrente: memória, ancestralidade e o olhar feminino.


A experiência de transitar entre duas línguas também trouxe questões relacionadas às raízes, à herança cultural e ao pertencimento.


Seu estudo do idioma turco foi desenvolvido de maneira autodidata e acompanhado por pesquisas sobre a história e a cultura do país. Esse percurso também chegou ao ambiente acadêmico.


Entre seus trabalhos está a tradução da dissertação “Uma Prática de Transformação Social e Comunicacional: A Revolução Linguística na Turquia Kemalista”, do professor Dr. Birol Şevki Tavlı, ligado ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Ancara.


Para Adriane, aprender outro idioma significa muito mais do que dominar novas palavras.


“Aprender uma nova língua e uma nova cultura é abrir uma nova janela para ver o mundo”, afirma.


A tradução de poesia, porém, impõe dificuldades particulares.


Adriane explica que expressões idiomáticas do turco nem sempre encontram equivalentes diretos em português. Por isso, considera insuficiente recorrer simplesmente à tradução automática sem compreender o contexto cultural da expressão utilizada pelo poeta.


Segundo ela, parte da riqueza de uma obra pode desaparecer quando a tradução procura apenas substituir palavras.


O mesmo desafio aparece na sonoridade. No início, Adriane buscava reproduzir nos dois idiomas efeitos semelhantes em seus versos. Com a experiência, passou a trabalhar primeiro o poema em português e somente depois transportá-lo para o turco, pesquisando possibilidades, significados e conotações.


A dificuldade, paradoxalmente, tornou-se uma das maiores riquezas do processo.


“Cada expressão intraduzível me obriga a entender a cultura por trás da palavra, não apenas o significado dela”, explica.


Além da produção individual, Adriane conduz há mais de cinco anos o projeto “Poesia Sem Fronteiras”, dedicado à aproximação das tradições literárias brasileira e turca.


Em junho de 2026, o projeto chegou a Istambul com o lançamento de uma antologia bilíngue reunindo poetas brasileiros e turcos traduzidos entre os dois idiomas.


O trabalho se soma ao lançamento de “A Istambul Em Mim”, livro no qual Adriane apresenta poemas próprios trabalhados em português e turco.


Seu segundo livro bilíngue de poesia, “As Sereias do Bósforo”, está em desenvolvimento. Paralelamente, escreve o romance “O Silêncio dos Mortos em Meus Sonhos”, cuja narrativa tem como pano de fundo a imigração libanesa para o Espírito Santo na década de 1870.


No campo da tradução, trabalha em projetos envolvendo autores turcos, entre eles Erkan Şahin, Elçin Sevgi Suçin e Nermin Savaş Atabey, além de desenvolver estudos sobre a escrita do poeta Mustafa Turay.


Adriane também coordena a tradução para o turco da obra “Hoje Tem Bakhtin? Tem Sim, Senhor!”, da escritora brasileira Maria da Penha dos Santos de Assunção.


Entre poemas, traduções, pesquisas e projetos editoriais, sua produção acabou encontrando justamente na distância entre Brasil e Turquia um território próprio.


Um espaço em que traduzir não significa apenas transportar palavras de um idioma para outro, mas descobrir o que existe por trás delas, e fazer da literatura uma ponte entre mundos que, à primeira vista, poderiam parecer distantes.


Arquivo pessoal
Arquivo pessoal


Sobre Adriane Rangel


Adriane do Espírito Santo Rangel é poeta, escritora, tradutora e pesquisadora, com estudos voltados à revolução linguística turca. É fundadora da Editora Aksan e dedica-se há vários anos ao estudo da língua e da literatura turca. Desenvolve projetos de intercâmbio literário entre Brasil e Turquia e atua na escrita, pesquisa e tradução de obras entre os dois idiomas.




Entrevista: As respostas que deram origem a esta matéria foram encaminhadas pela escritora Adriane Rangel ao diretor do Portal Auctoritas Notícias, Eric Rudhiery Albuquerque.

 
 
 

Comentários


Fale com a gente: auctoritasms@gmail.com
67 9 9214-3538

Campo Grande - Mato Grosso do Sul

Anúncios e Parcerias

2026 Auctoritas Notícias      Todos os direitos reservados
bottom of page