Entre livros, mercado e protagonismo feminino, Lu Aranha constrói uma trajetória de mais de 35 obras
Escritora, editora, professora e jornalista, autora gaúcha transformou a literatura em profissão e hoje também acompanha novos escritores nos caminhos da escrita e da publicação independente

Os livros chegaram cedo à vida de Lu Aranha. Antes mesmo de pensar na literatura como profissão, a leitura já ocupava um espaço importante em sua formação e funcionava como companhia durante a infância.
“Minha relação com a literatura começou muito cedo. Eu era uma criança bastante solitária, e os livros se tornaram minha companhia desde que aprendi a ler. Na casa da minha mãe havia muitos livros, dos mais variados tipos, e isso me deu acesso a leituras muito diferentes — algumas talvez precoces demais. Aos doze anos, por exemplo, li Borges.”
A leitura logo encontrou a escrita. Primeiro vieram os diários, que, segundo a autora, tiveram papel importante em sua própria vida.
“A leitura também me levou à escrita: comecei pelos diários, que foram, ao lado dos livros, um apoio importante na minha vida. Escrever e ler sempre estiveram muito ligados para mim.”
Em 2010, Lu publicou O Marcos Foi Alguma Vez durante a Feira do Livro de Porto Alegre, sua cidade natal. Antes disso, já havia participado de concursos de contos e crônicas, recebido premiações e mantido um blog com audiência significativa.
A publicação representou uma mudança importante, mas a circulação independente ainda apresentava obstáculos. Anos depois, a tecnologia abriria uma nova possibilidade.
“Em 2016, comecei a publicar e-books na Amazon. A primeira experiência de publicação havia sido muito boa, mas, depois da feira, eu tinha muitos exemplares e poucas possibilidades de circulação. Ainda não havia a força das redes sociais como temos hoje, e vender livros de forma independente era bem mais difícil.”
Foi por meio da publicação digital que Lu passou a enxergar a escrita também como profissão.
“A Amazon abriu uma nova possibilidade: comecei a enxergar a escrita como profissão e, com o retorno das publicações, pude sair do emprego e me dedicar integralmente à literatura.”
Em 2017, outro reconhecimento marcou sua trajetória: Lu foi semifinalista do Prêmio Sesc de Literatura com Todas as bocas que beijei ou sonhei, romance construído a partir de suas agendas e organizado em fragmentos da trajetória afetiva da personagem.
Mais tarde, a experiência acumulada também passou a ser compartilhada com outros autores. Em 2020, começou a dar aulas no Curso de Formação de Escritores da Metamorfose. Em 2025, lançou seu primeiro livro técnico, A arquitetura da ficção: um guia prático para o planejamento de narrativas longas.
A trajetória de Lu não se restringiu à produção dos próprios livros. Escritora, editora, professora e jornalista, ela passou a observar a literatura por diferentes perspectivas.
“Escrever e comunicar por meio da escrita sempre foram movimentos muito naturais para mim. A edição, por sua vez, começou na prática: nenhum livro publicado é uma primeira versão. Todo autor precisa aprender a retornar ao próprio texto, perceber seus excessos, suas lacunas e suas possibilidades.”
A experiência com outros escritores aprofundou esse olhar técnico. Já o jornalismo acrescentou uma dimensão ligada à comunicação, ao público e ao próprio mercado editorial.
“Como escritora, olho para dentro, para a linguagem, os personagens e a história que precisa ser contada. Como editora e comunicadora, olho para fora: para quem estamos falando, como a obra pode chegar ao leitor e de que modo ela se apresenta no mundo. Essa combinação influencia profundamente a minha maneira de pensar a literatura hoje.”
Ao longo de uma produção que já ultrapassa 35 livros publicados, a presença feminina tornou-se um dos elementos recorrentes da obra de Lu Aranha.
“A presença e a experiência das mulheres aparecem desde o meu primeiro livro: mulheres ocupando o mundo, vivendo seus conflitos e tentando existir em uma sociedade que frequentemente limita, silencia ou violenta seus corpos e suas escolhas.”
Com o amadurecimento de sua produção, a violência de gênero ganhou presença mais explícita. Depois de trabalhos ligados à comédia romântica, romance romântico, romance erótico e drama, a autora passou a tratar do tema de maneira mais direta em obras como Apenas o nada, Olhos fechados e Filhas da Terra.

Nesta última, Lu constrói uma distopia feminista protagonizada por seis mulheres: Lily, Eva, Madalena, Anitta, Joana e Marielle.
“Costumo dizer que é uma distopia com final utópico, porque não fazia sentido, para mim, escrever uma distopia feminista e ainda condenar essas mulheres a um desfecho sem horizonte.”
Segundo a escritora, Filhas da Terra dialoga com manchetes e casos reais, recriados por meio das personagens, inclusive com nomes carregados de simbolismo no imaginário coletivo.
Se a tecnologia tornou a publicação independente mais acessível, Lu identifica outra dificuldade no mercado contemporâneo: fazer com que o livro efetivamente encontre seu público.
“O maior desafio continua sendo encontrar o público certo e, depois, fidelizá-lo. Costumo dizer nas aulas que livro não é carro: quem lê está sempre buscando uma nova leitura. Por isso, não basta alcançar alguém uma única vez; é preciso construir uma relação contínua, para que esse leitor acompanhe os próximos lançamentos.”
Plataformas digitais e ferramentas de autopublicação diminuíram barreiras que anteriormente dificultavam a entrada de novos escritores. Mas publicar, para Lu, representa apenas uma etapa.
“Hoje, publicar é mais acessível. O desafio está em fazer o livro circular e encontrar quem realmente deseja lê-lo.”
Essa experiência também aparece na própria carreira da autora, que já transitou por diferentes subgêneros.
“Eu não me considero uma escritora de gênero ou de subgênero: sou uma autora que gosta de contar histórias. O gênero é a técnica e a linguagem que encontro para levar aquela história ao maior número possível de leitores.”
Hoje, uma das principais frentes profissionais de Lu é a Inkubadora Narrativa, agência dedicada ao acompanhamento de escritores.
“No momento, meu principal foco é a Inkubadora Narrativa, agência em que atuo com edição, publicação independente por meio do selo Inki Editora e mentorias para escritores. É um trabalho de acompanhamento próximo, voltado a quem deseja escrever, concluir ou publicar um livro com mais segurança e consistência.”
A atuação reúne diferentes dimensões construídas ao longo de sua trajetória: experiência autoral, edição, comunicação, conhecimento sobre autopublicação e formação de escritores.
Mesmo com a atenção dedicada atualmente à Inkubadora Narrativa, novos projetos literários já estão sendo planejados.
Um deles tem como personagem Dona Dulce, uma senhora de 90 anos, em uma narrativa policial ambientada em um condomínio onde homens que maltratam mulheres começam a desaparecer ou aparecer mortos.
Outro projeto, em estágio mais avançado de planejamento, será um romance histórico sobre uma mulher que, após uma separação, começa a descobrir suas próprias raízes e a história da família. A narrativa atravessará ancestralidades chilena e brasileira e dialogará com as ditaduras dos dois países.
“Os novos projetos literários devem ganhar forma nos próximos anos, provavelmente entre 2027 e 2028.”

Sobre a autora:
Lu Aranha é escritora, editora, professora e jornalista. Autora independente com mais de 35 livros publicados entre romances, dramas, comédias românticas e literatura feminista, é especialista em literatura de entretenimento e autopublicação.
Publica na Amazon desde 2016, é idealizadora da Inkubadora Narrativa, responsável pelo Selo Editorial E Se Fosse Você? e foi semifinalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2017.
Site:
Inkubadora Narrativa:
Instagram:
@luisa.aranha
Amazon:
Página de autora de Lu Aranha
Notas da redação:
As respostas, informações biográficas, fotografias, dados sobre livros, projetos e links utilizados para a produção desta reportagem foram encaminhados por Lu Aranha, via e-mail, à redação do Auctoritas Notícias. Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.



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