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A Moça da Máquina de Escrever: Marina Hadlich leva literatura às ruas de Florianópolis

  • Foto do escritor: Eric Rudhiery
    Eric Rudhiery
  • há 5 dias
  • 6 min de leitura

Em uma época marcada pela velocidade das telas, mensagens instantâneas e relações cada vez mais mediadas pela tecnologia, a escritora Marina Hadlich escolheu um caminho diferente para aproximar as pessoas da literatura: uma máquina de escrever, algumas folhas de papel, uma mesa em uma praça e disposição para ouvir.


Conhecida em Florianópolis como “a moça da máquina de escrever”, Marina concedeu entrevista ao editor do Auctoritas Notícias, Eric Rudhiery, e contou como uma trajetória inicialmente construída no Direito acabou conduzindo-a à literatura, aos projetos comunitários de incentivo à leitura e a uma iniciativa que já produziu milhares de textos para desconhecidos no coração da capital catarinense.


Marina Hadlich
Marina Hadlich

Todas as quartas-feiras, das 11h às 13h, ela vai à Praça XV, no centro de Florianópolis, acompanhada de sua máquina de escrever e de uma placa com uma proposta que dificilmente passa despercebida:

“Contos de graça na máquina de escrever.”


A dinâmica é simples. Quem se aproxima oferece o próprio nome e uma palavra de inspiração. A partir disso, Marina escreve.

Pode surgir um conto, um pequeno texto poético ou outra composição determinada pela inspiração daquele encontro. O texto é produzido ali mesmo, diante da pessoa, e entregue em papel.


Desde o início do projeto, em janeiro de 2024, Marina já escreveu mais de 2.400 textos dessa forma. A máquina utilizada na iniciativa possui ainda um valor afetivo especial: pertenceu ao avô da escritora e era utilizada por ele para trabalhar.


O projeto vai além da curiosidade despertada por uma máquina de escrever em plena praça.

Por trás da iniciativa existe uma concepção bastante clara de democratização da literatura.

Marina observa que muitas pessoas não frequentam bibliotecas, não possuem o hábito de comprar livros ou simplesmente vivem em uma rotina tão acelerada que dificilmente reservariam tempo para procurar literatura.


Por isso, ela decidiu inverter a lógica.

Em vez de esperar que as pessoas fossem até os livros, passou a colocar a literatura no caminho delas.


A praça tornou-se, assim, um ponto de encontro entre escritora e leitor, inclusive aquele que ainda não sabe que será leitor naquele dia.

Segundo Marina, muitas pessoas se emocionam com os textos recebidos. Em alguns casos, poucos minutos são suficientes para transformar uma conversa inesperada em uma lembrança que será levada para casa.

A própria escritora resume seu propósito como uma tentativa de levar amor e alegria por meio da escrita.



Antes de ser escritora profissional, Marina Hadlich construiu sua trajetória no Direito.

A aproximação decisiva com a escrita aconteceu durante um período de convalescença. Depois de se machucar e precisar permanecer em casa, ela passou a ler intensamente e, em meio às leituras, surgiu também o desejo de escrever ficção.

Em 2015, começou a produzir seus primeiros contos e histórias curtas.


Havia algo em comum entre eles: as mulheres.

Desse conjunto de narrativas nasceu o primeiro livro, “100 Mulheres”, publicado em 2019.

Dois anos antes da publicação, entretanto, Marina já havia tomado uma decisão que mudaria definitivamente sua trajetória profissional. Em 2017, deixou a carreira jurídica e passou a dedicar-se à literatura.


Depois do primeiro livro vieram outras obras: “O menino que se escondia”, infantil, publicado em 2021; o romance “Até essa comédia se tornar romântica”, de 2023; e o livro de contos “Mulheres mofadas nas entranhas e nas memórias”, também de 2023.


Mas a experiência no Direito não desapareceu completamente de sua produção.

Durante a atuação na área jurídica, Marina trabalhou com a reeducação de adolescentes e realizava campanhas de arrecadação de livros. Foi nesse período que começou a perceber a educação e a literatura como possibilidades de atuação antes que jovens chegassem à situação de cumprimento de medida socioeducativa.

Essa percepção acabaria influenciando não apenas sua mudança profissional, mas também a maneira como passou a compreender a função social da literatura.


O trabalho de Marina não se limita à publicação de obras.

No bairro Ribeirão da Ilha, em Florianópolis, ela mantém um clube de leitura e desenvolve pequenas bibliotecas comunitárias, construídas em estruturas semelhantes a casinhas de passarinho.


A proposta é permitir que os moradores tenham acesso aos livros de maneira simples, livre e sem burocracia.

Existe uma linha que conecta esses projetos à máquina de escrever da Praça XV: a tentativa constante de retirar a literatura dos espaços restritos e aproximá-la da vida cotidiana.

É a literatura indo até as pessoas.

E, na praça, muitas vezes o que começa como escrita acaba se transformando primeiro em escuta.


Marina contou ao Auctoritas Notícias que algumas pessoas se aproximam da máquina de escrever querendo um texto, mas acabam encontrando também um espaço para conversar.

Isso ocorre especialmente com idosos e também com pessoas em situação de rua.

Há momentos em que ela escuta mais do que escreve.


São relatos de vida, memórias e experiências que, muitas vezes, dificilmente encontrariam outro espaço para serem contados.

Quando isso acontece, a palavra inicialmente oferecida como inspiração deixa de ser a única matéria-prima. A própria história narrada pela pessoa pode entrar no texto produzido por Marina.


E desses encontros deverá surgir um novo livro.

A escritora já trabalha em um projeto inspirado nas histórias mais marcantes que escuta durante a ação na praça. Será uma obra particular em sua trajetória por dialogar diretamente com fatos e experiências reais compartilhados pelas pessoas que encontra.

A máquina, portanto, tornou-se mais do que instrumento de escrita.

Transformou-se também em instrumento de escuta.


Apesar de transitar por diferentes gêneros literários, existe um elemento recorrente na produção de Marina Hadlich: a experiência feminina.


O cotidiano das mulheres, os relacionamentos amorosos, o trabalho, a infância, o luto e a violência contra a mulher estão entre os temas presentes em seus livros.


Marina citou entre suas principais influências contemporâneas as escritoras brasileiras Andrea Del Fuego, Mariana Salomão Carrara, Giovana Madalosso, Aline Bei e Socorro Acioli.

Sua própria produção demonstra, entretanto, uma disposição para experimentar caminhos diferentes.

Depois de contos, literatura infantil e romance, a escritora prepara agora sua entrada no terror psicológico.



Em 2026, Marina lança “Sombra de Amália”, pela Qualis Editora, de Florianópolis.

O lançamento ocorre na Bienal do Livro de São Paulo, com previsão também de apresentação da obra em Florianópolis até o final do ano.

No novo trabalho, a escritora recupera parte da experiência adquirida durante sua passagem pelo Direito, especialmente o conhecimento relacionado às medidas socioeducativas, e transporta esse universo para a ficção.


A narrativa acompanha uma jovem que, após deixar uma internação, tenta começar uma nova vida no centro da cidade. Entretanto, ela continua sendo perseguida por quem anteriormente a acusou de homicídios.

A proposta combina esse universo com suspense e terror psicológico.

Marina resume a diferença entre o novo livro e os anteriores de uma maneira particular: os outros foram escritos para fazer o leitor rir ou chorar.

“Sombra de Amália” é para dar medo.


A repercussão do projeto da máquina de escrever fez com que a iniciativa ultrapassasse os limites da Praça XV.

Marina começou a receber convites para atuar em casamentos, congressos, lançamentos de marcas e eventos literários, produzindo textos personalizados ao vivo para os participantes.

Também passou a criar trabalhos datilografados maiores, destinados a presentes personalizados, utilizando características e informações sobre quem receberá o texto como elementos de inspiração.


A ação que nasceu como forma voluntária de incentivar a leitura acabou se transformando, portanto, em mais uma possibilidade profissional dentro da carreira da escritora.

E há certa coerência nisso.


Marina deixou uma profissão tradicional para seguir a literatura, mas não se restringiu ao modelo tradicional de ser escritora.

Publica livros, coordena iniciativas comunitárias, promove clubes de leitura, instala pequenas bibliotecas, escreve em eventos e ocupa uma praça com uma máquina que atravessou gerações de sua própria família.



Talvez seja justamente por isso que a expressão “a moça da máquina de escrever” tenha se tornado tão adequada.

Não se trata apenas de uma escritora que utiliza um objeto antigo.

Trata-se de alguém que encontrou naquele objeto uma forma própria de criar encontros.

Em uma sociedade acostumada a rolar rapidamente uma tela, Marina propõe algo diferente: parar por alguns minutos.

Dizer um nome.

Escolher uma palavra.

Contar, talvez, uma história.

E esperar enquanto o barulho das teclas transforma aquele encontro em literatura.




Biografia

Marina Hadlich nasceu em Blumenau, Santa Catarina, e tem 40 anos. Em 2017, deixou a carreira jurídica para dedicar-se à escrita.

É idealizadora de bibliotecas comunitárias, mediadora de clubes de leitura e de escrita e desenvolve, em Florianópolis, o projeto pelo qual se tornou conhecida como “a moça da máquina de escrever”, produzindo gratuitamente contos e poemas para pessoas que encontra na praça.


Marina publicou quatro obras e prepara seu quinto livro, “Sombra de Amália”, em 2026.

Instagram: @marinahadlich

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