Do kitnet de Belém para os quadrinhos nacionais: coletivo transforma convivência em produção autoral amazônica
Atualizado: há 6 dias
Criado em 2024 no bairro da Pedreira, o Coletivo Kitnet reúne seis artistas e roteiristas em uma produção que combina quadrinhos, ilustração, educação e referências amazônicas, enquanto busca ampliar a presença de autores do Norte no mercado nacional.

O Coletivo Kitnet nasceu de uma história pequena no espaço, mas ampla nas possibilidades. Antes de se tornar um grupo de produção independente, “Kitnet Life” era um perfil de tirinhas criado por Mandy Modesto sobre o cotidiano de morar em um pequeno kitnet. Depois de um período sem produzir, Mandy decidiu retomar os quadrinhos e recebeu de Felipe Marques uma proposta que mudaria a escala do projeto: criar um coletivo independente.
A ideia ganhou forma em Belém do Pará e, em 2024, passou a reunir artistas e roteiristas em torno de uma rotina comum de criação. O grupo chegou a ter oito participantes e hoje é formado por Mandy Modesto, Felipe Marques, Bell Modesto, César Modesto, Maiara Malato e Amanda Murta. A produção não se limita às histórias em quadrinhos: inclui ilustrações, produtos artesanais, ações educativas e encontros presenciais que misturam trabalho, convivência e lazer.
As reuniões de sábado ajudam a explicar a identidade do coletivo. Os integrantes almoçam juntos, organizam a casa, tomam café e trabalham nas etapas dos projetos. Depois, o grupo costuma jogar RPG, assistir a filmes ou simplesmente conversar. Essa convivência funciona como parte do processo criativo e também como espaço de formação profissional, troca de repertório e amadurecimento individual.
“Nossa preocupação é não desmerecer nossa terra, mas valorizá-la. Para quem é de fora, a leitura apresenta novidades; para quem é da região, cria reconhecimento e sensação de pertencimento.”
— Coletivo Kitnet
A experiência de viver no Norte aparece diretamente na linguagem visual e narrativa do Kitnet. O modo de falar dos personagens, os cenários, as escolhas de cor, as roupas e outros detalhes são construídos a partir da perspectiva de quem cresceu em Belém e na região amazônica. O cuidado, segundo o coletivo, é representar esse universo sem reduzir a Amazônia a estereótipos.
Essa escolha estética e narrativa tem uma dupla função. Para leitores de outras regiões, apresenta referências culturais que nem sempre encontram espaço nas publicações de maior circulação. Para o público nortista, o objetivo é produzir identificação: ver no quadrinho modos de falar, ambientes, paisagens e situações familiares, sem que a região apareça apenas como cenário exótico.
A autonomia do grupo também nasceu de uma necessidade prática. Distante dos principais centros editoriais do país, o cenário de quadrinhos do Norte se desenvolveu com forte caráter independente. No Kitnet, isso significou aprender quase todas as etapas da cadeia de produção: roteiro, desenho, arte-final, colorização, diagramação, edição e divulgação.
Um dos obstáculos mais concretos está na impressão. O coletivo relata dificuldade para encontrar gráficas especializadas com preços acessíveis na região e aponta o custo do papel na Amazônia como um fator que encarece a produção. Em muitos casos, a solução foi encomendar impressos de outros estados, o que reduz o custo unitário, mas exige planejamento, antecedência e gastos adicionais de logística.
A participação em eventos nacionais também pesa no orçamento de artistas independentes. Passagens, hospedagem, alimentação, taxas de participação e transporte de material tornam a circulação para o Sul e o Sudeste cara e, em alguns casos, pouco rentável. Por isso, iniciativas como o Norte em Quadrinhos e o Circuito Amazônico de Quadrinhos são vistas pelo grupo como formas de deslocar parte do protagonismo para a própria região e ampliar a visibilidade de autores nortistas.
“Temos muitos artistas talentosos, mas que são reconhecidos somente como artistas regionais, quando reconhecidos. Ainda faltam oportunidades para esses profissionais terem repercussão nacional.”
— Coletivo Kitnet.
Mesmo reunindo estilos diferentes, o Kitnet organiza a produção de forma compartilhada. Os roteiros costumam ser escritos por Felipe Marques, com assistência de César Modesto, mas os demais integrantes participam das discussões, sugerem mudanças e ajudam a pensar soluções visuais para o ritmo da narrativa.
Maiara Malato atua nos esboços, layouts, perspectivas e planejamento de cenários. Para construir referências de ambientes, ela também utiliza o jogo de simulação “Paralives”, que permite testar paredes, objetos e ângulos antes da finalização das páginas. A arte-final é dividida entre Maiara e Mandy Modesto.
O acompanhamento das páginas é feito de maneira simples e funcional em um grupo de WhatsApp. Cada página é numerada e recebe uma estrela conforme conclui uma etapa: desenho, arte-final e colorização. Quem assume uma página registra o nome ao lado do número e marca a conclusão quando termina. Bell Modesto é responsável pela colorização, usando uma paleta que ajuda a unificar visualmente páginas desenhadas por artistas diferentes.
Na etapa final, Felipe retorna como diagramador, preparando os arquivos para diferentes formatos de impressão — de revistas em A5 e A4 a páginas em A0 destinadas a exposições. Mandy atua como editora, enquanto a revisão é compartilhada por todos. A entrada de Amanda Murta reforçou especialmente a revisão textual e abriu uma nova frente: o grupo também planeja traduções para o inglês.
Quem faz o Coletivo Kitnet?






Fotos: acervo do Coletivo Kitnet.
Entre os trabalhos destacados pelo grupo está “A Viagem de Maíra”, indicada ao Prêmio HQMIX nas categorias de Melhor Publicação Infantil e Melhor Publicação Independente de Grupo. “Semana do Cão” foi indicada ao Prêmio Mapinguari na categoria de Melhor Quadrinho. O coletivo também cita o Projeto PEABIRU — Abelhas Nativas da Amazônia, desenvolvido em parceria com a UNESP, a Casa da Floresta e a Embaixada da Eslovênia.


Capas cedidas pelo Coletivo Kitnet para divulgação.
Nos próximos passos, o grupo pretende ampliar a circulação nacional, participar de eventos fora do Pará e lançar um novo quadrinho no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte. O coletivo também estabeleceu parceria com a loja BOHO, no Mercado de São Brás, que apoia a causa animal, e vem incentivando os integrantes a desenvolverem obras autorais individuais para fortalecer a identidade de cada artista além da assinatura coletiva.
Ao mesmo tempo, a proposta do Kitnet continua ancorada naquilo que lhe deu origem: produção independente, convivência e trabalho colaborativo. O grupo transforma um espaço doméstico de encontro em uma pequena estrutura editorial, capaz de escrever, desenhar, revisar, colorir, diagramar, imprimir, divulgar e circular seus próprios quadrinhos.
“Apenas que busquem conhecimento!”
— Coletivo Kitnet, citando o ET Bilu
Crédito das fotografias: Bárbara Freire
Coletivo Kitnet: @kitnet__
Mandy Modesto: @mandy_modesto_
Felipe Marques: @v0id419
Bell Modesto: @apenasbell
César Modesto: @cesar_mod
Maiara Malato: @_mai.drawing
Amanda Murta: @amandamurta_
Fonte editorial: entrevista e materiais enviados pelo Coletivo Kitnet ao Auctoritas Notícias em setembro de 2026.
Texto preparado para publicação pelo Auctoritas Notícias.
Editado e revisado pelo diretor de Marketing Eric Rudhiery Albuquerque.



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