Paulo Alberto: entre quadrinhos, nanquim e biscuit, uma trajetória construída pela criação independente
Artista de Presidente Prudente fala sobre a influência dos gibis na infância, a liberdade dos fanzines, os desafios de alcançar leitores e a retomada das HQs com “Agatha: Inspetora Juvenil”.
Por Eric Rudhiery Albuquerque

Os quadrinhos entraram cedo na vida de Paulo Alberto. Antes mesmo de pensar em transformar o desenho em atividade profissional, ele já encontrava nos gibis, nos filmes e nos desenhos animados um estímulo para imaginar outras histórias. Décadas depois, essa relação permanece no centro de uma trajetória que reúne produção independente, ensino de desenho e artesanato em biscuit.
O interesse começou por volta dos cinco anos, quando Paulo folheava histórias de Mauricio de Sousa e de super-heróis. A alfabetização ampliou essa experiência: ler passou a significar também descobrir que ele próprio poderia inventar narrativas.
“Desde criança, lá pelos cinco anos de idade, eu gostava de folhear os gibis do Maurício de Sousa e os de super-heróis. Comecei a aprender a ler aos 6, aí sim eu dei início a essa aventura. E quanto mais eu lia, mais eu sentia vontade de contar minhas próprias histórias.”
Na infância, ele ainda recorria a personagens conhecidos para criar novas situações. O repertório vinha também do cinema e da animação. O que começou como brincadeira, porém, amadureceu junto com o interesse pelo desenho e abriu caminho para trabalhos próprios.
Para quem deseja começar a publicar quadrinhos, Paulo vê no fanzine uma alternativa particularmente importante. A lógica independente reduz a dependência de editoras e permite que o próprio autor controle o ritmo de criação, embora tenha de assumir custos e o esforço de divulgação.
“Eu acho totalmente válido começar de algum jeito e o mais fácil são os zines. Nesse formato você não depende de editora e nem de prazos. O autor tem todo o tempo e liberdade que precisa para criar sua obra.”
A autonomia, segundo ele, precisa vir acompanhada de circulação. Feiras e eventos culturais ajudam o trabalho a chegar além do círculo mais próximo do artista.
“É muito importante participar de eventos literários e culturais para divulgar o trabalho e fazer o público te conhecer, ao invés de se limitar a amigos, colegas e familiares.”

Mesmo utilizando recursos digitais na finalização, Paulo mantém um processo fortemente ligado ao desenho tradicional. As ideias podem nascer de situações que gostaria de ver no mundo real ou, no extremo oposto, de fantasias deliberadamente exageradas. Pessoas próximas também aparecem como referência para personagens.
“Atualmente eu me inspiro em amigos, colegas e familiares para criar personagens, porque acho que todo mundo, por mais que tenha uma vida pacata, pode ser sim protagonista interessante.”
A construção visual começa no papel. Primeiro vêm os rascunhos a lápis; depois, a arte recebe pena e nanquim. A digitalização entra apenas posteriormente, para aplicação dos textos e pequenos ajustes.
“Eu desenho os rascunhos a lápis em folhas de sketch ou sulfite antes de passar a pena e nanquim num papel mais espesso. Depois digitalizo e, no computador, aplico os textos e faço algumas melhorias. Sim, ainda prefiro produzir HQs do jeito tradicional.”
A independência criativa não elimina um problema recorrente: fazer a obra chegar aos leitores. Paulo considera esse alcance um dos principais desafios para autores independentes e lembra uma experiência que marcou sua trajetória.
“Em 2006, eu participei da feira de fanzines no Anime Friends com uma obra autoral e não consegui vender nenhum exemplar. Aquilo me deixou chateado, pois eu sabia que tinha feito o melhor que pude.”
Com a expansão da internet, parte dessa barreira diminuiu. Obras que encontravam dificuldades para circular fisicamente passaram a ter novas possibilidades de publicação e leitura.
“Hoje temos a internet e esse caminho se tornou mais curto. Desde 2017, muitas obras minhas que eu cansei de tentar vender em eventos agora podem ser lidas online através de parceiros.”

Paulo iniciou a atuação profissional como instrutor de desenho em 2011, depois de anos de estudo em uma escola de artes de Presidente Prudente, cidade onde vive. Em paralelo às aulas, produzia quadrinhos independentes, participava de eventos e realizava palestras e oficinas.
Em 2016, passou a empregar seus conhecimentos artísticos na modelagem de bonecos. Três anos depois, o biscuit se consolidou como profissão e tornou-se sua principal fonte de renda. A mudança de foco chegou a afastá-lo temporariamente das HQs.
“Depois que encerrei minha série online ‘Mila’ em 2023, fiquei dois anos sem desenhar quadrinhos por causa do meu trabalho com artesanato. Para quem não sabe, minha principal renda é modelar bonecos em biscuit.”
Outra frente de sua trajetória é o projeto Desenho Livre em Prudente, criado em 2011 no Centro Cultural Matarazzo e atualmente desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura de Presidente Prudente. A proposta é oferecer ensino de desenho para crianças e adolescentes a um custo abaixo do praticado no mercado, além de disponibilizar vagas para bolsistas de baixa renda e casas de acolhimento.
A pausa na produção sequencial não significou abandono definitivo dos quadrinhos. Paulo trabalha agora em “Agatha: Inspetora Juvenil”, projeto policial protagonizado por uma adolescente de 16 anos que atua disfarçada como estudante para investigar crimes envolvendo crianças e adolescentes, sobretudo no ambiente escolar.
“Atualmente estou me dedicando, quando tenho tempo, a uma HQ policial intitulada ‘Agatha: Inspetora Juvenil’. É sobre uma garota de 16 anos que trabalha disfarçada como estudante colegial para resolver crimes que envolvem crianças e adolescentes, principalmente na escola.”
A protagonista nasceu de uma referência familiar: a sobrinha do artista, que também se chama Agatha. A intenção é publicar a história em capítulos bimestrais na revista digital Action Hiken, do Estúdio Armon.
“A protagonista é inspirada na minha sobrinha, que tem o mesmo nome. Será uma série pensada em capítulos bimestrais para ser publicada online na revista Action Hiken, do Estúdio Armon, editora independente.”

Entre as obras apresentadas por Paulo estão “Sing”, fantasia humorística criada em 2009; “Dr. Monstro”, série de tiras produzida entre 2009 e 2011; “Histórias Daquele Cara Estranho”, compilação de histórias curtas desenvolvidas entre 2013 e 2015; e “Mila”, fantasia de terror musical iniciada em 2018 e publicada em 22 capítulos online até 2023.
O percurso ajuda a explicar por que desenho, quadrinhos e artesanato aparecem de forma tão próxima em sua trajetória. Ainda que as linguagens e os meios tenham mudado, a criação manual continua sendo o ponto de ligação entre as diferentes fases do artista.
Sobre Paulo Alberto:
Paulo Alberto é artista plástico, quadrinista, instrutor de desenho e artesão em Presidente Prudente (SP). Iniciou a atividade profissional como instrutor em 2011, produz quadrinhos independentes, realiza oficinas e exposições e tem no biscuit sua principal fonte de renda.
Instagram: @ateliepauloalberto | YouTube: Paulo Alberto Artista Plástico.
Nota editorial: A reportagem foi produzida a partir das respostas, da biografia e das imagens encaminhadas por Paulo Alberto ao Auctoritas Notícias. As falas em destaque foram preservadas em primeira pessoa, com ajustes pontuais de ortografia, pontuação e oralidade para leitura, sem alteração de sentido. Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque



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