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Rubenio Marcelo: a poesia como morada do ser e os caminhos de uma obra reconhecida pela UFMS

  • Foto do escritor: Eric Rudhiery
    Eric Rudhiery
  • há 23 horas
  • 9 min de leitura

Com uma trajetória construída entre a literatura, a música, a crítica cultural e a atuação institucional, Rubenio Marcelo ocupa um lugar de destaque na produção artística de Mato Grosso do Sul. Autor de treze livros — três deles em coautoria — e três CDs, ele é membro efetivo da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 35, e já integrou o Conselho Estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul.


Rubenio Marcelo - Arquivo pessoal
Rubenio Marcelo - Arquivo pessoal

Sua presença em bienais, feiras, festivais e encontros literários no Brasil e no exterior amplia o alcance de uma obra marcada pela reflexão sobre a linguagem, a existência, o pertencimento e a identidade.


Entre seus trabalhos, “Vias do Infinito Ser” adquiriu projeção especial. Publicado inicialmente em 2017 e com segunda edição lançada em 2021, o livro passou a integrar programas de leitura da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.


No conteúdo programático oficial da 3ª etapa do PASSE UFMS — triênio 2024–2026, divulgado pelo Edital nº 298/2026 —, a obra aparece entre as leituras obrigatórias ao lado de “Seminário dos Ratos”, de Lygia Fagundes Telles, e “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum.


A seleção insere a poesia de Rubenio no cotidiano de estudantes e professores e estabelece uma ponte significativa entre a literatura produzida no estado e a formação de novas gerações de leitores.


A entrevista foi concedida ao diretor do Portal Auctoritas Notícias, Eric Rudhiery, em 1º de setembro de 2026. Como o escritor se encontrava em viagem, a conversa foi realizada à distância, por escrito.


Ao longo das respostas, Rubenio revisita o início de sua relação com a poesia, examina a presença de Mato Grosso do Sul em sua criação, descreve as diferenças entre escrever poemas, ensaios e canções, comenta o reconhecimento alcançado por “Vias do Infinito Ser” e reflete sobre os caminhos necessários para ampliar a circulação da literatura sul-mato-grossense.

A seguir, a entrevista é apresentada na íntegra. Todas as respostas foram mantidas exatamente como enviadas pelo entrevistado.


Rubenio Marcelo - Arquivo pessoal
Rubenio Marcelo - Arquivo pessoal

Entrevista:

1 — Como começou sua relação com a poesia e em que momento percebeu que a literatura faria parte da sua vida?

RM — Em mim, a poesia chegou primeiro como encantamento, enlevo, pela escuta. Desde cedo convivi com a arte e especialmente a literatura, por influência dos meus pais, do meu lar, e também por ter estudado em regime de internato em Colégio Marista, onde tínhamos atividades e aulas de artes em geral, inclusive música e poesia. Assim, este pendor pela leitura (e pela escrita) foi surgindo em mim naturalmente, desde menino. E a poesia talvez tenha sido também uma herança de berço – e me considero até hoje um eterno aprendiz. Já na adolescência, em Fortaleza, como estudante do Liceu e, posteriormente, na Universidade (UFC), é que realmente veio um efetivo engajamento, através dos movimentos artísticos, concursos literários, festivais e outros acontecimentos literoculturais alencarinos. Assim, com mais dedicação, comecei a escrever (e compor) com um grupo de poetas amadores (jovens sonhadores) e vieram as primeiras publicações em revistas/jornais e o meu primeiro livro impresso – depois outros vieram à luz. Com o tempo, no tocante à poesia, veio-me a percepção de que escrever era/é também uma expressão de pertencimento, uma maneira de compreender o universo existencial e amenizar o tédio do cotidiano, vez que – como sabemos – a poesia nos mostra a hermenêutica da vida e do mundo. Por isto é que a humanidade precisa da poética e do pensamento (da força vital da linguagem), como também precisa das demais fontes de cultura. Necessito da poesia – é ela que completa a incompletude dos meus passos.”


2 — De que forma Mato Grosso do Sul aparece ou influencia sua escrita, direta ou indiretamente?

RM — Consciente ou inconscientemente, a poesia em geral é feita de vozes e timbres plurais... e, no meu caso, decerto, MS é também uma das vozes/ecos sublimes que habitam o meu ser; território de vivências, mas sem delimitar/caracterizar a minha produção poética, que essencialmente é diversa/contemporânea. Destarte, certa vez, assim timbrei: “aqui... / quantos sonhos, caminhos e descobertas / em aliados destinos sedentos de auroras / pulsam em mim / nestes altiplanos / e planícies além-limites... // (...) // ah, estrela dourada de nova constelação, / geografia natural da essência / de gerações, têmperas, identidades e seres / coesos em diversidade e cidadania / na esfera indivisa / e no ventre desta jovem pátria-lugar: Mato Grosso do Sul!”.


Portanto, obrigado, por esta significante pergunta! E, neste sentido (por ter tudo a ver), peço-lhe permissão para responder citando um dos meus poemas contidos no meu livro recente “Caminhos”:


Gorjeios variantes de terra-história (em verbal de Ave-MS):


Há uma fala

em cada falange das minhas mãos...

E nos meus lábios

muitos outros timbres de resistentes gorjeios

acalentam firmamentos

na cor do céu das minhas cordas vocais...


Trago a língua de fora – e não é de cansaço:

é um jeito que agora eu tenho

pra contar aos meus filhos

os passos dos meus distantes ancestrais...


Do Atlântico eu vim

[num cavalo-marinho

guiado pelo reflexos do sol

nas retinas de um pássaro imaginário]

para aprender o canto das nascentes

que se insinuam em madrigais azuis

destes rios e planaltos...


Aqui, fecundos instintos

e a espinha dorsal das minhas palavras,

quais lavras sedentas de sonhos,

brindaram horizontes de outras palavras

deste chão nativo

e de outros trilhos e portos

saudosos das zingas de audazes embarcadiços

também irmãos dos aborígenes

que moldaram com suas pegadas

as dores e os arredores destas searas...


E nem me digam pra dobrar a língua,

pois com o gume do meu destino

eu já finquei na tenda das resistentes etnias

a certidão de nascimento do meu Verbo...

que floresceu e me floresce a cada dia

nas vozes das águas e dos campos,

nos olhares itinerantes e fronteiriços

e também na irmandade natural da minha sina

em face dos sinais das nações-irmãs...


Sedento de falas, eu quero falar... e escutar...

num falar-ouvir em sintonia

com a plenitude do eco da nossa essência,

estreitando as divisas da nossa alma falante

e seus variados cantares

que, apesar dos pingos dos is e dos ais do cotidiano,

unificam a inesgotável legenda da trilha sonora

dos nossos caminhos plurais...


Ah, Ave-MS,

teus gorjeios variantes são uníssonos prelúdios

de diversas vogais e consoantes

que se acolhem na harmonia dos ninhais

e plataformas de sóis e luas

destas vozes de terra e de história.


® Rubenio Marcelo”


3 – Entre poesia, prosa e composição musical, o que muda no seu processo criativo em cada linguagem?

RM — Tudo depende do momento, o singular impulso do instante (que é o que chamam de ‘inspiração’) – e que também, às vezes, requer especial transpiração. Eventualmente, no meio do trabalho ou de um silêncio comigo, ou na rua, ou noutro lugar, surge algo que desperta em mim uma emoção diferente, uma inquietação, um sopro emocional que transcende... Assim, me vêm palavras e versos e ideias e também inclinações musicais... Vezes, paro e anoto estes rebentos de criação. Aí, no tocante à construção, busco a plenitude da linguagem, ampliando seus caminhos, enquanto procuro trabalhar razoavelmente a tessitura final da obra. Entanto, tudo deve ser concebido com naturalidade e desvelo: o mesmo foco objetivando sintonizar o cerne dos desígnios da arte, expressando ademais um íntimo sentimento de liberdade, de conquista, e/ou de consciente sonhar.

Na poesia, procuro a síntese e a sintonia-fina do coração da palavra, o ritmo, aquilo que pode ser dito e também (principalmente) aquilo que precisa fluir no eco espontâneo do silêncio-voz e na além-palavra das imagens e entrelinhas. Aquilo que escrevo, vivencio (ou vivo o cio daquilo que escrevo)! Certo também é que a poesia em algumas vezes surge do nada; e em outras, se insurge a tudo.

Já no que tange à crítica literária ensaística, há uma dimensão especialmente reflexiva na busca da expressão do texto que estabeleço embasado com fiel atenção na leitura/análise e diálogo com outras obras e ideias.

E na composição musical, a palavra quase sempre dialoga com o meu violão, que recepciona a linguagem e lhe sugere corpo, pulsação, harmonia. Muitas vezes, a letra me conduz à melodia, vez que a palavra chega carregada de sonoridade; em outras, é um acorde, um ritmo ou uma sequência sonora que abre caminho para a palavra (em equilíbrio com a composição). Como toco um instrumento, essas duas dimensões frequentemente se encontram de forma muito natural no meu processo criativo. Outrossim, há canções que nascem inteiras de mim, nesse íntimo colóquio entre voz/ouvido, violão e palavra; e há aquelas que surgem das parcerias, quando outras sensibilidades acrescentam à minha uma nova perspectiva, um inesperado caminho. Aliás, gosto muito das boas parcerias que tenho no campo musical e inclusive até celebrei isto no meu mais recente CD – intitulado “Parcerias” – obra com 22 faixas que foi lançada inicialmente em Campo Grande (em show aberto no SESC Morada dos Baís) e depois em Portugal, na Universidade de Aveiro. ”


4 — Qual obra ou texto seu melhor representa o escritor que você é hoje – e por quê?

RM — No tocante aos meus livros publicados, todos têm – para mim – um significado especial, porque cada um guarda um certo momento, uma experiência e uma etapa da minha trajetória pelas sendas da palavra. Entanto, destaco Vias do Infinito Ser (Ed. Letra Livre, 1ª ed., 2017; e Ed. Life/Letra Livre, 2ª ed. 2021), por ser um livro que ocupa um lugar muito particular em minha caminhada: não apenas pelo que representa para mim, mas também pela acolhida que recebeu e vem recebendo dos leitores e da crítica. Este livro ganhou aspecto relevante ao ser indicado - pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - como obra literária de leitura obrigatória para vários vestibulares recentes e também para o PASSE UFMS, inclusive atualmente continua listado - ao lado de Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles, e Cinzas do Norte, de Milton Hatoum - para o PASSE UFMS / triênio 2024-2026 – 3ª Etapa, cuja prova está prevista para dezembro/2026.

Vias do Infinito Ser é um livro (aprovado pelo FIC-MS) que foi lançado inicialmente aqui em Campo Grande (em 2017) e depois em vários outros locais, inclusive - a convite - em Portugal, no Departamento de Línguas e Cultura da Universidade de Aveiro (em 2018), onde também lancei o meu CD Musical “Parcerias”), e na Argentina (em 2022), por ocasião do Festival Internacional de Poesia de Buenos Aires, evento do qual participei como convidado/palestrante. Ao conceber o perfil estético desta obra, eu busquei sintonizar um ser lírico que empreendesse uma viagem por dentro de si mesmo e pelo íntimo fecundo da linguagem, na esteira daquele preceito de Heidegger: “a linguagem é a morada do ser”. Sabemos que é através da linguagem que o ser se aproxima ao infinito, especialmente na relação com a arte, mormente a poética, na criação que transcende e que pode ascender à dimensão do metafísico. A poesia, como sabemos, é atemporal... e é sempre necessária, pois em realização linguística instaura a forma de a substância do humano dialogar consigo mesmo e revelar-se como ser. Assim, certamente, estes desígnios pulsam e pulsarão sempre nas linhas e entrelinhas dos poemas deste meu livro.

Por tudo, considero Vias do Infinito Ser uma obra importante na minha caminhada não apenas pelo que escrevi nela, mas pelo caminho (pelas vias) que ela própria encontrou depois de publicada.”

5 — O que ainda precisa acontecer para que a literatura produzida em Mato Grosso do Sul seja mais conhecida dentro e fora do estado?

RM — Como sabemos, a produção literária de Mato Grosso do Sul é excelente, com ótimos autores e obras (tanto em prosa como em versos). O potencial criativo aqui é deveras fecundo, e vemos, assim, frequentemente novos livros sendo lançados. Portanto, precisamos, antes de tudo, reconhecer/valorizar a dimensão e a qualidade da produção que existe, aproximando-a das novas gerações, e também sensibilizando escolas, universidades (e demais estabelecimentos) para que as boas obras literárias produzidas aqui estejam mais presentes em salas de aula, em estudos, bibliotecas, projetos de leitura, feiras e encontros (locais e também nacionais). Enfim, é preciso a ampliação de recursos e incentivos institucionais destinados ao apoio permanente à leitura e à produção regional (intercâmbios/circulação) e mais programas voltados para o efetivo fomento da literatura do nosso estado. Devemos destacar também a importância dos concursos literários locais, como – por exemplo – os realizados pela nossa Academia Sul-Mato-Grossense de Letras: o Concurso de Contos "Ulysses Serra" (atualmente já com 54 anos) e o “Concurso de Poesias Oliva Enciso” (mais recente, este inclusive foi idealizado por mim na ASL), ambos com inscrições gratuitas incentivando a criação literária regional (escritores residente em MS) e também a descoberta de novos talentos.

Além de expressiva história, natureza e paisagens singulares, Mato Grosso do Sul possui também um fértil território literário/cultural, vozes altivas e pensamentos peculiares. Quando essas vozes circulam, alçam voos, partem do regional para alcançar o universal, não estamos apenas divulgando autores do estado: estamos fortalecendo o próprio repertório da literatura brasileira.”


Rubenio Marcelo - Arquivo pessoal
Rubenio Marcelo - Arquivo pessoal

Biografia do entrevistado

Rubenio Marcelo é poeta, escritor, ensaísta, compositor, revisor linguístico-ortográfico e advogado inscrito na OAB-MS. Possui treze livros publicados, três em coautoria, e três CDs musicais. É membro efetivo da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, onde ocupa a Cadeira nº 35, e foi conselheiro estadual de Cultura de Mato Grosso do Sul.


Entre as distinções recebidas por sua atuação literocultural, está a vitória no tradicional concurso literário “Noite Nacional da Poesia”.

Ao longo da carreira, participou como convidado de atividades, palestras, mesas culturais, oficinas e lançamentos em eventos como a Bienal Internacional de Poesia, a Feira Literária Internacional do Tocantins, a Feira Literária de Bonito, o Festival América do Sul, o Festival de Inverno de Bonito e a Feira do Livro de Brasília. Também é um dos autores homenageados no livro “Vozes da Literatura”, da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, publicação que aborda sua obra e sua biografia.


Entre seus títulos de maior repercussão está “Vias do Infinito Ser”, obra lançada no Brasil, em Portugal e na Argentina e selecionada pela UFMS como leitura obrigatória em diferentes edições de seus processos seletivos. No PASSE UFMS do triênio 2024–2026 — 3ª etapa —, o livro permanece no conteúdo programático oficial. Rubenio Marcelo reside em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

 
 
 

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