ANÁLISE INTERNACIONAL | EXCLUSIVO Paraguai x Brasil: as regras que movem o capital
- Eric Rudhiery
- há 6 dias
- 7 min de leitura
Em análise exclusiva ao Auctoritas Notícias, o economista e financista paraguaio César Antonio Addario Soljancic examina como disciplina fiscal, tributação, câmbio e ambiente de investimentos ajudam a explicar trajetórias distintas das duas economias, e o que Brasil e Paraguai podem aprender um com o outro.
Análise: César Antonio Addario Soljancic
Entrevista, contato editorial e edição: Eric Rudhiery Albuquerque | Editor do Auctoritas Notícias

O Auctoritas Notícias publica sua primeira grande colaboração internacional com uma análise dedicada a uma das relações econômicas mais estratégicas da América do Sul: Brasil e Paraguai.
Convidado pelo portal para apresentar sua leitura sobre o desempenho econômico dos dois países, o economista e financista paraguaio César Antonio Addario Soljancic produziu uma análise exclusiva na qual coloca no centro do debate questões como disciplina fiscal, carga tributária, dívida pública, taxa de câmbio, investimento privado e competitividade.
Addario é economista e consultor financeiro paraguaio com mais de duas décadas de experiência em mercados emergentes. Atualmente, ocupa a vice-presidência regional da EXOR LATAM C.A. para a América Central e o Caribe, atuando especialmente em estratégias relacionadas a dívida soberana e engenharia financeira. É graduado em Economia e mestre em Finanças pelo Illinois Institute of Technology, em Chicago, nos Estados Unidos.
A entrevista e o contato editorial que deram origem a esta participação foram conduzidos diretamente por Eric Rudhiery Albuquerque, editor do Auctoritas Notícias. A partir do convite, Addario encaminhou ao portal sua análise em versões em espanhol e português.
O artigo parte de uma comparação direta entre os ciclos econômicos recentes de Paraguai e Brasil e desenvolve uma tese baseada em quatro grandes eixos: disciplina fiscal, cunha tributária, regime cambial e eficiência na alocação de capital. Ao longo do texto, o economista também discute competitividade, integração produtiva dentro do Mercosul, investimento estrangeiro e as diferenças institucionais que, em sua avaliação, influenciam a movimentação do capital entre os dois países.
O Auctoritas Notícias preserva o conteúdo e as conclusões apresentadas pelo autor, respeitando a natureza de uma análise econômica assinada.
A seguir, o artigo de César Antonio Addario Soljancic:
Paraguai e Brasil: disciplina fiscal, cunha tributária, taxa de câmbio e alocação eficiente do capital
Por César Antonio Addario Soljancic
"O contraste entre o desempenho paraguaio e o brasileiro nos ciclos recentes não admite interpretações voluntaristas. O Paraguai expandiu seu produto em 6,6 % em 2025 e projeta um ritmo próximo de 4,4-4,5 % em 2026. O Brasil move-se no entorno de 2 %. A diferença se explica pelo desenho das restrições fiscais, pela magnitude da cunha tributária sobre o capital e o trabalho, pelo regime cambial e pelo grau em que os preços relativos refletem escassez verdadeira, e não distorções estatais. Quando o Estado limita sua absorção da poupança, reduz os impostos efetivos sobre o retorno do capital e mantém uma taxa de câmbio flexível ancorada em uma meta de inflação crível, o investimento privado responde. Quando ocorre o contrário, o capital se realoca em direção a jurisdições com menor distorção".
"A âncora fiscal é o ponto de partida. O Paraguai opera sob uma Lei de Responsabilidade Fiscal que estabelece um teto de déficit de 1,5 % do PIB. Embora 2026 apresente um desvio temporário associado à regularização de atrasados (arrears), o compromisso de convergência permanece e o mercado o internaliza. A dívida pública situa-se em torno de 38-40 % do PIB. Esse nível gera spreads soberanos baixos, acesso a grau de investimento e um custo de financiamento que não desloca de maneira agressiva o setor privado. No Brasil, ratios de dívida na faixa de 80-90 % do PIB produzem um efeito crowding-out mensurável: o serviço dos juros compete diretamente pelo fluxo de poupança disponível, eleva a taxa de juros real de equilíbrio e reduz o volume de projetos cuja taxa interna de retorno supera o custo de oportunidade do capital. A restrição orçamentária intertemporal não é um detalhe contábil; é a condição que determina se o Estado coexiste com a acumulação privada ou a reprime".
"A cunha tributária reforça o mecanismo. O Paraguai aplica um esquema de 10 % sobre a renda empresarial, 10 % de IVA e alíquotas pessoais próximas de 10 %. O regime de maquila reduz a tributação a 1 % sobre o valor exportado, com amplas isenções sobre insumos e bens de capital. A carga tributária agregada situa-se no entorno de 12-14 % do PIB. O resultado é um aumento do retorno líquido após impostos. O Brasil, com alíquotas corporativas em torno de 34 %, alíquotas pessoais que alcançam 27,5 % e uma carga total que supera 30-40 % do produto, gera uma cunha significativamente maior. Essa diferença não é cosmética: altera o limiar de viabilidade dos projetos e modifica a localização ótima das etapas produtivas. O capital se desloca para onde o valor presente líquido dos fluxos futuros, descontados à taxa de mercado, é superior. A mobilidade observada de empresas brasileiras em direção ao Paraguai, têxteis, autopeças, alimentos processados, plásticos, é a manifestação empírica desse arbitragem".
"A taxa de câmbio opera como um canal adicional de transmissão dessas diferenças de fundamentos. O Paraguai mantém um regime de flutuação administrada dentro de um esquema de metas de inflação crível. O guarani tem se apreciado de maneira sustentada frente ao dólar em períodos recentes, refletindo superávits comerciais em setores-chave, entradas líquidas de investimento estrangeiro direto e a percepção de menor risco soberano. Essa apreciação não é um fenômeno artificial induzido por intervenção discricionária massiva; é o resultado de maiores fluxos de capital e de uma demanda por moeda local respaldada por fundamentos. Frente ao real brasileiro, o guarani tem mostrado relativa estabilidade ou movimentos leves, o que reduz a incerteza para o comércio bilateral e para as empresas que operam em ambos os lados da fronteira. Uma taxa de câmbio flexível atua como amortecedor de choques externos: permite que os preços relativos se ajustem sem forçar desequilíbrios fiscais ou monetários maiores. A apreciação real do guarani eleva o poder de compra das rendas em moeda local e barateia os bens de capital importados, reforçando a rentabilidade do investimento em máquinas e tecnologia. Ao mesmo tempo, pressiona a competitividade de alguns setores de bens transacionáveis, o que obriga a ganhos de produtividade genuína em vez de depender de uma moeda fraca como subsidiário implícito. No Brasil, a maior volatilidade do real e as pressões derivadas do déficit fiscal e da taxa de juros elevada geram prêmio de risco cambial que encarece o financiamento em moeda local e complica o planejamento de projetos de longo prazo".
"A competitividade emerge desses parâmetros, e não de decretos. Um ambiente de baixa distorção tributária, déficit controlado e taxa de câmbio flexível permite que os preços dos fatores, trabalho, energia, capital, se aproximem de suas produtividades marginais. O Paraguai oferece, além disso, energia renovável a custos unitários entre os mais baixos da região. Isso reduz o custo variável da manufatura e eleva a rentabilidade relativa da industrialização orientada à exportação. O Brasil possui escala de mercado e profundidade financeira, ativos reais. No entanto, esses ativos se depreciam quando os custos de transação regulatórios, a complexidade tributária e a incerteza cambial elevam o custo efetivo de conformidade. Cada camada adicional de obrigações, cada imposto em cascata e cada incerteza sobre a regra futura atua como um imposto implícito que reduz a acumulação de capital físico e humano".
"A abertura ao investimento estrangeiro direto funciona como um mecanismo revelador de custos relativos. Quando o capital pode cruzar fronteiras dentro do Mercosul com fricções moderadas, as diferenças de regime fiscal, regulatório e cambial se traduzem em realocação geográfica da produção. Não se trata de “esvaziamento”, mas de otimização. As firmas maximizam o valor para seus acionistas alocando etapas segundo as vantagens de custo após impostos, após custos de conformidade e após risco cambial. O Paraguai captura uma parcela crescente dessas etapas precisamente porque oferece um menu de regras mais favorável à acumulação e uma taxa de câmbio que reflete credibilidade monetária. O Brasil retém o mercado final e parte das etapas de maior valor agregado, mas perde elos intermediários quando a cunha tributária, o custo de capital e a volatilidade relativa se tornam proibitivos".
"As lições são simétricas e técnicas. O Paraguai obtém do Brasil acesso a cadeias de valor mais longas e a um mercado interno de grande escala; o spill-over tecnológico e de gestão eleva a produtividade local. O Brasil obtém do Paraguai a demonstração empírica de que a disciplina fiscal crível, a simplicidade tributária, a contenção do gasto corrente e um regime cambial ancorado em fundamentos geram maior acumulação de capital e maior crescimento do produto. A estabilidade monetária, meta de inflação cumprida de maneira consistente — reforça o efeito: reduz o prêmio de risco e permite que os contratos de longo prazo sejam firmados com menor incerteza, tanto em termos nominais quanto reais".
"Não existem atalhos. O crescimento sustentado requer que o setor privado possa responder aos sinais de preços sem distorções excessivas sobre o retorno do capital. Quando o Estado se limita a garantir regras previsíveis, estabilidade de preços, um marco tributário que não desincentive o investimento e uma taxa de câmbio flexível que reflita os fluxos reais de capital e comércio, o capital flui e se acumula. Quando o Estado prioriza a expansão do gasto, a complexidade regulatória e a proteção de rendas existentes, o capital se retrai ou se desloca. Os números do Paraguai documentam o primeiro caso. Os números relativos do Brasil documentam o custo do segundo".
Sobre César Antonio Addario Soljancic

César Antonio Addario Soljancic é economista e consultor financeiro paraguaio, com mais de duas décadas de atuação em mercados emergentes. É vice-presidente regional da EXOR LATAM C.A. para a América Central e o Caribe, onde atua em estratégias de dívida soberana, estruturação financeira e assessoramento econômico. Também possui experiência em operações financeiras internacionais e gestão de estratégias relacionadas a mercados emergentes.
É graduado em Economia e mestre em Finanças pelo Illinois Institute of Technology (IIT), de Chicago, Estados Unidos. Ao longo de sua trajetória, também teve atuação acadêmica e participação como analista em veículos de comunicação especializados.
Nota da Redação
O artigo de César Antonio Addario Soljancic foi encaminhado diretamente ao Auctoritas Notícias em versões em português e espanhol. A versão em português foi adotada para publicação destinada ao público brasileiro.
As análises, interpretações e conclusões econômicas apresentadas no artigo são de responsabilidade de seu autor e foram preservadas pelo Auctoritas Notícias.



Comentários