As árvores que guardam a memória: projeto transforma raízes em histórias de vida pelo Brasil
- Eric Rudhiery
- há 6 dias
- 8 min de leitura
Criado pela bióloga Rita de Cássia Prando, o Árvores que Contam Histórias já reúne 207 relatos em 125 municípios e revela algo que números não conseguem medir: a relação de afeto, identidade e pertencimento construída entre pessoas e árvores. Em Campo Grande, quatro histórias fazem parte desse acervo.

Antes de existir um projeto, existia uma árvore.
Ela havia sido plantada por um pai no dia do nascimento da filha. Cresceu enquanto a menina crescia. Atravessou anos, estações e mudanças e, silenciosamente, passou a carregar uma história que não podia ser medida apenas pela altura do tronco, pelo tamanho da copa ou pela idade da planta.
A menina era Rita de Cássia Prando. Tornou-se bióloga e passou a atuar nas áreas de Educação Ambiental e Educação Patrimonial. Décadas depois, aquela relação particular com uma árvore ajudaria a dar origem a uma iniciativa dedicada a encontrar pelo Brasil outras pessoas que também guardavam suas lembranças entre raízes, galhos e folhas.
Nascia, em setembro de 2019, o Árvores que Contam Histórias.
“Apresento-me: Meu nome é Rita de Cássia Prando, sou bióloga e atuo há muitos anos na área de Educação Ambiental e Educação Patrimonial.”
“O “Árvores que Contam Histórias” é um projeto independente, desenvolvido por mim, com a “parceria” dos mais de 200 entrevistados que compartilharam suas histórias e memórias voluntariamente para fazer possível este acervo de histórias.”
A origem da iniciativa ajuda a compreender por que o projeto olha para uma árvore de uma maneira diferente. A espécie importa. A idade pode impressionar. O tamanho chama a atenção. Mas, para Rita, existe algo além daquilo que a botânica consegue classificar.
Existe aquilo que uma árvore representa para alguém.
“Ele se iniciou em 2019 a partir do amor e respeito que eu tenho particularmente por esse ser magnífico que é a árvore.”
“E assim, como eu mesma tinha a minha história relacionada à uma árvore (que foi plantada pelo meu pai, no dia do meu nascimento) e percebendo a atração natural que as pessoas têm pelas árvores, decidi ir em busca de outras histórias e compartilhá-las com o maior número de pessoas possíveis através das facilidades fornecidas pelas atuais redes sociais.”
Foi assim que as viagens de trabalho começaram a ganhar uma segunda finalidade. Quando uma árvore despertava sua atenção, Rita procurava quem vivia por perto. Mais do que identificar a planta, queria descobrir quem havia crescido à sua sombra, quem se lembrava dela, quem tinha alguma coisa para contar.
“Como viajava bastante devido ao meu trabalho, comecei a levantar árvores que encontrava pelo caminho, e ia atrás das pessoas do entorno que porventura tivessem alguma relação afetiva ou história para contar daquelas árvores.”
O que encontrou foi uma espécie de arquivo vivo espalhado pelo país.
Memórias que não estavam necessariamente guardadas em documentos, fotografias antigas ou registros oficiais. Estavam nas pessoas.
“Qual foi a minha surpresa ao descobrir com que facilidade essas histórias surgiam, demonstrando como nós humanos, mesmo os urbanos, ainda temos uma forte relação com a natureza, demonstrada através das lembranças, carinhos e afetos relacionadas às árvores.”
207 histórias e um Brasil ligado pelas raízes

Desde setembro de 2019, o projeto chegou a 207 histórias, provenientes de 125 municípios, alcançando os 26 estados brasileiros e Brasília.
Por trás desses números, porém, estão mais de 200 pessoas que aceitaram compartilhar voluntariamente recordações que, muitas vezes, pertenciam à parte mais íntima de suas trajetórias.
“Nestes quase 7 anos de projeto já foram contadas mais de 200 histórias, de árvores diferentes, de todos os cantos do Brasil (tem história de todos os estados!).”
O propósito nunca foi apenas reunir curiosidades. Há uma intenção de preservação, mas também uma tentativa de lembrar que a relação entre sociedade e natureza não desapareceu com a urbanização.
“Meu objetivo sempre foi valorizar estes seres, a fim de que tenham mais cuidado com eles, fomentando sua preservação - e evidenciar como o ser humano ainda é sensível para as coisas belas e simples da natureza, e como somos dependentes dela para sobreviver.”

Em Campo Grande, a história de um baobá
Mato Grosso do Sul aparece no acervo por meio de quatro histórias, todas localizadas em Campo Grande.
Ao falar sobre a Capital, Rita recorda uma das árvores que mais a impressionaram durante o desenvolvimento do projeto.
“Dentre as histórias postadas, há quatro de Mato Grosso do Sul, e todas na cidade de Campo Grande. Coincidência ou não, a cidade de Campo Grande recebe desde 2019 (até 2025) o título de “Cidades Árvore do Mundo” (do original “Tree Cities of the World”), de uma fundação norte-americana (Arbor Day Foundation em conjunto com a FAO/UNESCO) (aprendi isso com o Sr. Arnaldo, um entrevistado ^^).”
Entre as quatro, não foi necessariamente a mais antiga que ficou marcada na memória da bióloga.
“E dessas quatro árvores a que mais me chamou a atenção, apesar de ser jovem e exótica, foi a do Baobá, da Feira do Baobá.”
A força daquela história não está apenas na origem da árvore, mas no que aconteceu ao redor dela. Uma semente vinda da África foi cultivada por um morador. Depois de sua morte, o cuidado permaneceu. A árvore deixou de pertencer apenas a quem um dia a plantou e passou a integrar a vida da comunidade.
“Porque ficou evidente a importância que ela ocupa na comunidade local, desde sua origem, uma semente que veio da África, cuidada com esmero por um morador, e que sua proteção continuou após sua morte.”
O vínculo se tornou tão expressivo que ultrapassou a própria árvore e ganhou espaço na vida cultural da região.
“Aqui podemos ver como a comunidade se apropriou dela ao ponto de criarem um evento de arte e cultura que leva o nome da árvore! A “Feira do Baobá”.”

É justamente aí que o trabalho do projeto se distancia de um catálogo de espécies.
O que está sendo documentado não é somente qual árvore existe em determinado lugar, mas o que aconteceu à vida das pessoas enquanto aquela árvore estava ali.
Batendo de porta em porta atrás de memórias
No Árvores que Contam Histórias, a memória humana ocupa o centro da investigação.
“O “Árvores” é um projeto que evidencia a natureza claro, representada pela árvore, mas acima de tudo é também de história oral, onde a memória das pessoas relacionadas a elas é o grande protagonista.”
Por isso, a identificação científica não determina o valor de uma história.
“Tanto é que o projeto não se prende a tentar identificar o nome científico da árvore, o mais importante é o que vem das pessoas entrevistadas, seus sentimentos, suas lembranças e o nome que elas mesmas conhecem destas árvores (nome popular).”

O método utilizado por Rita, principalmente no início da iniciativa, tinha pouco de sofisticado e muito de disposição para ouvir.
Primeiro vinha a árvore. Depois, a procura por alguém que tivesse alguma coisa para dizer sobre ela.
Às vezes, literalmente de porta em porta.
“Para encontrar essas histórias parte-se sempre da árvore. Em seguida, vai-se em busca do coadjuvante da história, e eu, literalmente, batia de porta em porta para descobrir alguém que tivesse alguma história ou memória relacionada para compartilhar com o projeto. Pasmem (até eu fiquei surpresa com a facilidade), na maioria das vezes eu encontrava alguém que tinha algo para contar, e como era gratificante quando começavam a compartilhar suas lembranças, e muitas se emocionavam ao compartilhá-las.”
A experiência acumulada durante esses encontros levou Rita a uma constatação sobre a relação entre seres humanos e natureza.
“Com o que eu vivenciei até aqui no projeto, corroboro a premissa de que as árvores são elementos de grande simbologia para os seres humanos e como ainda nós temos fortes laços com a natureza, mesmo ainda os totalmente urbanizados.”
Quando as estradas fecharam, as histórias continuaram viajando
Poucos meses depois do lançamento do projeto nas redes sociais, o mundo enfrentaria a pandemia de Covid-19.
Uma iniciativa que dependia justamente de deslocamentos, encontros, entrevistas e fotografias presenciais encontrou um obstáculo que poderia ter interrompido o trabalho quando ele ainda estava começando.
Não interrompeu.
O contato passou a ser feito à distância. Telefone e internet substituíram as visitas. Pessoas de diferentes regiões passaram a ajudar com informações, fotografias e novos contatos.
“Quando iniciei a busca das histórias, normalmente me locomovia de carro ou ônibus para outras cidades, porém, após alguns meses que lancei o projeto nas mídias, no final de 2019, entrou a pandemia do Covid-19, que me impediu de ir pessoalmente fazer as entrevistas e as fotos. Porém, como não podia deixar morrer o projeto que acabara de nascer (pois havia anos planejando isto), o que me restou foi conseguir as árvores, e suas histórias, à distância. Assim, buscava representantes arbóreos representativos, por sua idade, porte, beleza e ia atrás, por telefone ou internet fazer contato com as pessoas. E auxiliada por essas pessoas, deu certo. Sou muito grata a elas por compartilharem suas histórias com toda boa vontade e solicitude (tiravam fotos para mim, passavam contatos de outras pessoas...) o que possibilitou conseguir histórias dos quatro cantos do Brasil!”
Com a divulgação, o movimento também passou a acontecer no sentido contrário: algumas histórias começaram a encontrar o projeto.
“Claro que, após a divulgação do projeto na internet, algumas pessoas passaram a trazer suas histórias espontaneamente para serem contadas por aqui.”
O que desaparece quando uma árvore desaparece?
Talvez a pergunta mais importante levantada pelo trabalho de Rita não seja quantos anos uma árvore pode viver.
É o que morre junto quando ela deixa de existir.

Em uma cidade, uma árvore oferece sombra, abrigo, beleza e benefícios ambientais. Mas o projeto propõe enxergar uma camada menos visível: com o passar dos anos, aquele mesmo espaço pode participar da construção da memória de uma pessoa, de uma família, de um bairro ou até de uma comunidade inteira.
“Uma árvore por si só já é um monumento para uma cidade, ela é abrigo para outros seres, melhora o ar que respiramos, nos alivia nos dias de calor, ainda embeleza a nossa cidade e acalma o nosso coração.”
Quando existe apropriação afetiva e histórica, Rita entende que essa importância adquire outra dimensão.
“Mas sua importância pode ser maior, pois que, quando apropriada por um indivíduo ou um grupo, e assim passa a fazer parte de sua história, acaba por se tornar um patrimônio, seja individual ou coletivo, e esse patrimônio é muito importante na construção da identidade de uma pessoa ou uma cidade.”
Uma árvore pode desaparecer em poucas horas.
As histórias construídas em torno dela, porém, podem representar décadas da vida de alguém.
E é precisamente esse ponto que transforma preservação ambiental também em preservação da memória.
“Por todos esses motivos, quando se perde uma árvore destas, muito se perde, pois que o representante destas histórias de afeto, memórias e lembranças não se encontrará lá mais, podendo assim fazer com que parte desses elementos, que constituem nossa da identidade, sejam esquecidos.”
Um livro para devolver as histórias a quem as contou
Depois de percorrer virtualmente e presencialmente diferentes regiões do país, o projeto ainda não considera seu acervo encerrado.
Rita resume o primeiro desejo em poucas palavras:
“Novas histórias sempre. Que venham de todas as partes do Brasil.”
Entre os próximos passos está a criação de uma plataforma própria.
“Pretendo criar um site para o projeto, como outra forma de divulgação.”
Mas existe um plano ainda mais antigo, pensado desde antes do nascimento oficial da iniciativa: transformar parte do acervo em livro.
E há um detalhe importante nesse projeto. A intenção é que a obra retorne também para as mãos daqueles que ajudaram a construí-la.
“E, realizar um dos objetivos que existe desde antes do projeto iniciar: fazer um livro com parte do acervo. Um livro com as histórias e fotos, e que sua distribuição seja feita gratuitamente, para todos os entrevistados que participaram, para algumas bibliotecas e instituições, diretorias de ensino, o que for possível.”
Talvez seja esse o sentido mais profundo do Árvores que Contam Histórias.
Uma árvore não fala. Não escreve suas memórias. Não registra o nome das crianças que brincaram sob sua copa, das famílias que se reuniram ao seu redor, de quem a plantou, de quem a protegeu ou de quem continuou cuidando dela depois que alguém partiu.
Mas as pessoas lembram.
E, enquanto alguém estiver disposto a perguntar e outro alguém estiver disposto a contar, essas histórias ainda podem sobreviver.
Porque algumas árvores não estão apenas plantadas em uma rua, praça ou quintal.
Elas também criam raízes na memória de quem viveu ao lado delas.
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Conheça o projeto
Projeto: Árvores que Contam Histórias
Responsável: Rita de Cássia Prando
Início: setembro de 2019
Acervo: 207 histórias
Alcance: 125 municípios, 26 estados e Brasília
Instagram: @arvoresquecontamhistorias
Facebook: arvoresquecontamhistorias
WhatsApp: (11) 95040-9436



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