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Brasil, um eterno país onde o futuro nunca chega

  • Foto do escritor: Giovana Cáceres
    Giovana Cáceres
  • 10 de ago.
  • 3 min de leitura

Juros ainda elevados, endividamento recorde e renda pressionada dificultam o consumo das famílias e aumentam a fragilidade de pequenos negócios



A economia brasileira atravessa uma fase em que os números positivos convivem com uma realidade mais difícil para milhões de famílias: o dinheiro continua curto, o crédito permanece caro e uma parcela elevada da renda está comprometida com dívidas.


O cenário não é de hiperinflação, como o Brasil enfrentou no passado. Mas o problema atual aparece de outra maneira: o custo do dinheiro, o endividamento e a dificuldade de aumentar o poder de compra limitam o consumo e pressionam principalmente as famílias de menor renda.


A taxa Selic, que chegou a 15% ao ano em 2025, começou a cair em 2026. Na reunião de agosto, o Banco Central reduziu a taxa de 14,25% para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo. Ainda assim, trata-se de um patamar elevado, que continua influenciando as demais taxas de crédito da economia.


O peso maior está no orçamento das famílias.

Quando os juros permanecem elevados, o efeito não aparece apenas nos investimentos ou no mercado financeiro.

Ele chega ao cotidiano.

Financiamentos ficam mais caros, empréstimos custam mais, o crédito rotativo do cartão pesa no orçamento e a renegociação de dívidas pode prolongar o comprometimento da renda.


Em abril de 2026, 80,9% das famílias brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC. Foi o maior nível da série histórica da pesquisa.

Para famílias de menor renda, o problema é ainda mais delicado.


Quem ganha pouco normalmente destina uma parcela maior da renda para alimentação, moradia, transporte, energia e outros gastos essenciais. Quando o preço desses itens aumenta ou uma dívida passa a consumir parte do salário, sobra pouco espaço para consumo, lazer, poupança ou investimento.

É por isso que uma economia pode registrar crescimento e geração de empregos e, ao mesmo tempo, continuar transmitindo uma sensação de aperto financeiro para parte da população.


A dívida pública também chega ao bolso.

O problema não está apenas nas dívidas das famílias.

O governo também enfrenta um elevado estoque de dívida pública. Em maio de 2026, a dívida bruta do governo geral chegou a R$ 10,6 trilhões, equivalente a 81,1% do PIB, segundo o Banco Central.


Quanto maior o endividamento e maior o custo dos juros, maior tende a ser a pressão sobre as contas públicas.

E existe um mecanismo que conecta governo, empresas e famílias: os juros.

Quando o mercado exige taxas mais altas para financiar o governo, o ambiente de crédito tende a permanecer mais caro. Isso reduz a capacidade de consumo das famílias e aumenta o custo de financiamento das empresas.


O pequeno empresário sente primeiro.

Para uma grande companhia, juros elevados podem significar redução de investimentos ou aumento do custo financeiro.

Para um pequeno negócio, a consequência pode ser muito mais imediata.

Uma empresa pequena frequentemente depende de capital de giro para comprar mercadorias, pagar fornecedores, manter funcionários e atravessar períodos de vendas menores.


Quando o crédito fica caro, a margem desaparece rapidamente.

O cenário de recuperação judicial também acende um alerta. Segundo levantamento do Monitor RGF, o Brasil registrou 5.931 pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026, o maior volume da série histórica do indicador. É importante destacar que recuperação judicial não significa falência: trata-se justamente de um mecanismo utilizado por empresas em dificuldade para tentar reorganizar suas dívidas e continuar funcionando.



É nesse ponto que o ambiente de negócios brasileiro passa a ser comparado com países vizinhos.

O Paraguai utiliza, entre outros mecanismos, o regime de Maquila, voltado à produção destinada à exportação. Nesse modelo, empresas habilitadas podem pagar um tributo único de 1% sobre o valor agregado da operação de exportação, além de contar com outras facilidades tributárias previstas no regime.


A comparação não significa que simplesmente mudar uma empresa de país seja a solução. Infraestrutura, mão de obra, logística, mercado consumidor, segurança jurídica e acesso a fornecedores também pesam na decisão.


Mas a diferença mostra um problema brasileiro: produzir e investir aqui ainda pode envolver uma estrutura tributária e burocrática muito mais complexa.

A resposta não precisa ser apenas reduzir impostos de maneira indiscriminada.


O caminho passa por simplificar o sistema tributário, reduzir burocracia, aumentar a segurança jurídica, melhorar a produtividade, ampliar o acesso ao crédito e criar condições para que pequenas empresas consigam crescer sem depender permanentemente de crédito caro.


O Brasil não precisa escolher entre arrecadar e produzir.

Precisa construir um sistema em que seja possível arrecadar sem sufocar quem produz, investir sem estimular desequilíbrios fiscais e permitir que famílias tenham renda suficiente para consumir, poupar e construir patrimônio.


Porque, no fim, uma economia saudável não é aquela que apenas arrecada mais.

É aquela em que famílias conseguem pagar suas contas, empresas conseguem crescer e o Estado consegue cumprir suas obrigações sem empurrar a conta para o futuro.

 
 
 

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