Carolina Cohen revela como os vínculos humanos transformam a vida na Antártida
A Antártida costuma ser retratada por suas paisagens de gelo, expedições e pesquisas científicas. Mas o continente também é habitado temporariamente por pessoas que trabalham, compartilham rotinas e constroem relações em condições de isolamento. A geógrafa argentina Carolina Cohen, professora e pesquisadora da Universidade Nacional da Terra do Fogo, participou durante dois meses da campanha antártica de verão de 2024–2025 na Base Carlini, onde investigou como os vínculos humanos e os espaços cotidianos contribuem para o sentimento de pertencimento.
Por: Eric Rudhiery | Redação Auctoritas Notícias
Em entrevista ao Auctoritas Notícias, a pesquisadora explica como a convivência permanente, a liderança, a camaradagem e o respeito à privacidade influenciam a vida na base. O estudo envolveu 28 entrevistas com integrantes das equipes militar e científica, além de observação participante.
Como surgiu a oportunidade de investigar as relações humanas na Base Carlini?
Carolina Cohen: “Sou graduada e doutora em Geografia pela Universidade Nacional de Mar del Plata e pela Universidade Nacional do Sul, respectivamente, ambas na Argentina. Há aproximadamente dez anos integro a equipe de pesquisa Turismo na Antártida e Áreas Remotas, da Universidade Nacional da Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul. Como professora e pesquisadora, estudo principalmente as dinâmicas territoriais do turismo em Ushuaia, tanto como porta de entrada para a Antártida quanto como destino de cruzeiros. Territorialidade, sentimento de pertencimento e lugar são conceitos fundamentais nesse trabalho.”
“Na temporada de verão de 2024–2025 surgiu a possibilidade de colaborar com o Instituto Antártico Argentino em uma pesquisa que aplicasse essas perspectivas à Antártida, com foco na construção do sentido de lugar na Base Carlini. Para a geografia social, as pessoas e os grupos são fundamentais para compreender as dinâmicas territoriais. Foi um desafio que aceitei sem hesitar.”
“O trabalho contou com o apoio da Área de Ciências Sociais, Comunicação e Difusão do Instituto Antártico Argentino e reuniu profissionais de diferentes áreas: o historiador Pablo Fontana, a antropóloga María Laura Fabrizio, o sociólogo Matías Bellinco, o profissional de meios audiovisuais Nicolás Deluca e eu.”

O que a pesquisa procurou compreender sobre a convivência e o sentimento de pertencimento?
Carolina Cohen: “Os objetivos centrais foram conhecer os espaços de trabalho, lazer e convivência da Base Carlini como configurações socioespaciais que contribuem para a construção de identidade, além de analisar o sentido de lugar associado à base. Consideramos esse sentido tanto como categoria espacial quanto simbólica.”
“O aspecto mais enriquecedor dos dois meses que passei na campanha foi compreender melhor como se constroem os vínculos entre os grupos sociais e entre as pessoas e o espaço. Conviver 24 horas por dia, sete dias por semana, em isolamento geográfico e afetivo, sob condições climáticas difíceis, constitui uma realidade muito diferente de outros ambientes. Nesse contexto, a camaradagem desempenha um papel fundamental: os vínculos e os valores sociais ajudam a construir o sentido de lugar.”

Quais fatores favorecem a cooperação e o bem-estar coletivo em um ambiente tão isolado?
Carolina Cohen: “Além das relações entre colegas, a capacidade de liderança é fundamental. O chefe da base e o chefe científico têm papéis decisivos para que o bem-estar coletivo prevaleça, mesmo diante das dificuldades. Isso apareceu nos resultados, pois muitos entrevistados valorizaram esse trabalho.”
“Viver em um lugar remoto significa trabalhar com as mesmas pessoas com quem se convive. É necessário compartilhar conhecimentos, experiências e costumes profissionais e pessoais, mas também cultivar empatia e respeito pelos momentos de introspecção e pela necessidade de ficar sozinho. Vários entrevistados disseram que não existe a possibilidade de voltar para casa depois de um dia ruim. Essa frase expressa a complexidade da convivência permanente — e também como uma identidade coletiva se constrói nesse contexto.”

Como a pesquisa foi conduzida e de que maneira a privacidade dos participantes foi preservada?
Carolina Cohen: “Adotamos uma metodologia qualitativa, combinando entrevistas em profundidade semiestruturadas e observação participante. Durante a campanha, a população da base variou entre 80 e 90 pessoas; entrevistamos 28 participantes, entre militares e cientistas vinculados a projetos do Plano Anual Antártico.”
“Preservamos a identidade dos participantes, identificando-os pelo papel desempenhado na campanha. A maioria, contudo, assinou consentimento para que seus dados e informações possam integrar futuramente o Arquivo de História Oral desenvolvido pelo Instituto Antártico Argentino.”
“As entrevistas foram planejadas e revisadas em equipe, codificadas e analisadas com software de análise qualitativa. A observação participante também seguiu critérios previamente definidos: acompanhamos atividades científicas, militares e momentos de lazer, sempre respeitando a disponibilidade e a disposição de cada grupo e participante.”
Que ensinamento essa experiência oferece a quem nunca esteve na Antártida?
Carolina Cohen: “O trabalho nos aproximou da complexidade social da Antártida e mostrou que o espaço pode assumir características diferentes conforme quem o vivencia. Também fortaleceu a importância das ciências sociais nas pesquisas antárticas.”
“A geografia humana e social compreende o espaço não apenas como suporte físico, mas como espaço vivido. Pensar a Antártida dessa maneira significa reconhecer um espaço percebido, concebido e vivido: um produto social complexo, apropriado, significado e valorizado pelas pessoas. Para compreender essa dimensão, nem sempre é necessário estar fisicamente presente, mas é necessário sentir.”
Sobre Carolina Cohen
Carolina Cohen é graduada e doutora em Geografia, professora-pesquisadora da Universidade Nacional da Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul, e integrante do grupo Turismo na Antártida e Áreas Remotas. Atua em geografia social e dinâmicas territoriais, com estudos sobre Ushuaia, turismo e destinos da Patagônia. Atualmente dirige o projeto PIDUNTDF-B 06/2026, dedicado às dinâmicas territoriais de destinos emergentes e consolidados da Patagônia.”
Pesquisa citada: Cohen, C.; Fabrizio, M. L.; Morgavi, M.; Fontana, P. (2026). “Base Antártica Carlini (Argentina). Espacio percibido, concebido y vivido”. Revista de Ciencias Sociales, 35(56), 1–23. DOI: https://doi.org/10.61303/0718-3631.v35i56.594
Fotografias: Carolina Cohen, reproduzidas com autorização da autora. Perfis indicados pela entrevistada: @turismo_untdf, @idei_untdf, @untdf_universidad e @intituto_antartico_argentino.
Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.



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