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Karoliina Kase revela como a fotografia pode despertar consciência ambiental e respeito aos animais

Foto do escritor: Eric Rudhiery
Eric Rudhiery
há 18 horas
8 min de leitura

Há fotografias que não permitem ao espectador simplesmente passar os olhos e seguir adiante. Elas convidam a observar, questionar e reconhecer vidas que frequentemente permanecem fora do enquadramento. É nessa interseção entre força estética e consciência ambiental que se destaca o trabalho de Karoliina Kase, fotógrafa estoniana radicada na Austrália, cuja obra dá visibilidade à relação complexa entre a sociedade, os animais e o mundo natural.


Por: Eric Rudhiery | Redação Auctoritas Notícias


Formada com honras em Artes Visuais pela Brown University, nos Estados Unidos, Kase construiu uma trajetória internacional que inclui exposições na Europa, América do Norte, Ásia e Austrália. Seu trabalho recebeu reconhecimento de instituições e publicações como British Journal of Photography, Vital Impacts, Life Framer e Australian Geographic, além de aparecer em veículos como The Guardian e De Volkskrant. A projeção de seu trabalho está ligada a uma escolha artística exigente: registrar realidades difíceis sem abrir mão da dignidade dos seres fotografados.


Em entrevista ao Auctoritas Notícias, ela fala sobre a influência de diferentes países em seu olhar, o impacto das queimadas australianas de 2019–2020, a ética da fotografia documental e o poder das imagens de aproximar o público de questões ambientais que, por vezes, parecem distantes. Mais do que mostrar o sofrimento, sua fotografia procura provocar atenção, responsabilidade e reflexão.


Retrato em preto e branco de Karoliina Kase
Karoliina Kase, fotógrafa e artista visual. Foto: ©Karoliina Kase.
Voluntária sentada com filhote de canguru no colo, cercada por outros cangurus.
Voluntária acolhe um filhote de canguru para ajudá-lo a se alimentar. ©Karoliina Kase

Como as experiências na Estônia, na Costa Rica, nos Estados Unidos e na Austrália transformaram sua maneira de fotografar a relação entre as pessoas e a natureza?


Karoliina Kase: “Embora eu tenha me voltado à fotografia ambiental e de animais depois de me mudar para a Austrália, todos os lugares onde vivi moldaram a forma como vejo e fotografo a relação entre as pessoas e a natureza.”


“Na Estônia, onde cresci, a natureza está profundamente entrelaçada à cultura. Desde cedo, compreendi que dependemos do mundo natural e temos a responsabilidade de respeitá-lo. Ao mesmo tempo, percebia a tensão entre essa profunda ligação da Estônia com a natureza e a destruição provocada por práticas como o corte raso de florestas. Essa consciência passou a fazer parte da minha visão do mundo muito antes de eu trabalhar profissionalmente com fotografia.”


“Na Costa Rica e nos Estados Unidos, eu vivia no exterior como estudante internacional, então minha experiência era, de certa forma, mais restrita. Ainda assim, a extraordinária biodiversidade da Costa Rica renovou meu apreço pela riqueza do mundo natural. Apesar de o país ser celebrado como um refúgio ambiental, também vi fissuras por trás dessa imagem, especialmente na forma de poluição.”


“Os Estados Unidos eram um lugar de extremos, onde consumismo e industrialização pareciam coexistir com algumas das maravilhas naturais mais espetaculares do mundo.”


“A Austrália, porém, foi o lugar que mais profundamente influenciou meu trabalho. Pouco depois de chegar, deparei-me diretamente com questões ambientais e de bem-estar animal que me afetaram muito. Ver de perto a produção animal, seguido pelos incêndios devastadores de 2019–2020, tornou esses problemas imediatos e pessoais. Foi difícil desviar o olhar do que eu testemunhava e, com o tempo, a fotografia se tornou uma maneira de me envolver com aquilo.”


“Cada país influenciou a forma como vejo o mundo natural, mas foi viver na Austrália que me levou ao tipo de fotografia que faço hoje.”


Peixe butterfly gurnard fotografado em detalhe por Karoliina Kase.
Butterfly Gurnard: a beleza e a vulnerabilidade da vida aquática em um mesmo enquadramento. ©Karoliina Kase

Como você concilia a responsabilidade de registrar situações difíceis envolvendo animais com a criação de imagens que convidem o público a olhar com atenção, em vez de desviar o rosto?


Karoliina Kase: “A produção animal, por sua própria natureza, é confrontadora e não é algo que a maioria de nós escolheria observar de perto voluntariamente. Embora imagens extremamente gráficas tenham seu lugar nesse movimento, geralmente procuro introduzir elementos estéticos em cenas que, de outra forma, seriam perturbadoras. Isso pode acontecer por meio de uma composição cuidadosa, de uma iluminação atmosférica ou de determinada paleta de cores.”


“Não vejo isso como uma tentativa de tornar o assunto mais palatável, mas como uma forma de atrair o olhar do público e incentivá-lo a permanecer mais tempo diante da imagem.”


“Também procuro me aproximar dos animais da mesma maneira como me aproximaria de pessoas ao fotografá-las: como indivíduos e sujeitos dignos de respeito, e não apenas como representações de um problema. Ao fazer retratos de animais, muitas vezes me abaixo até a altura dos olhos deles, o que cria uma perspectiva mais íntima. Também presto muita atenção à linguagem corporal e ao comportamento, adaptando minha abordagem para que se sintam confortáveis.”


“Interessa-me justapor assuntos difíceis à beleza que existe ao nosso redor. Acredito que esse contraste pode estimular as pessoas a olhar além do tema imediato e considerar como essas realidades tão diferentes coexistem.”


Grande área de confinamento de gado, com cercas e aerogeradores ao fundo.
Confinamento de bovinos em uma instalação agropecuária (Beef cattle feedlot). ©Karoliina Kase

Cena de rodeio com uma pessoa montada sobre um bovino e espectadores observando.
Consumed: cena de rodeio registrada no projeto fotográfico da artista. ©Karoliina Kase

Em um projeto documental, como você decide quando uma fotografia deve priorizar a evidência, a atmosfera ou a emoção?


Karoliina Kase: “Acredito que há espaço para os três tipos de imagem dentro de um projeto. Quando trabalho em um documentário fotográfico, certos temas e perguntas recorrentes começam a surgir: por que determinada situação existe, o que está acontecendo e quais são as consequências. Muitas vezes, há aspectos pouco conhecidos ou verdades incômodas que quero trazer à luz. São as âncoras de evidência do projeto, e é importante que comuniquem a mensagem com clareza.”


“No entanto, sem imagens atmosféricas ou emocionais, o trabalho correria o risco de se tornar pouco mais do que um relatório. A atmosfera oferece contexto ao assunto e permite que o espectador passe mais tempo com ele, enquanto a evidência oferece substância e fundamento.”


“Para mim, imagens emocionais muitas vezes estão ligadas à razão mais profunda para contar uma história: mostrar quem ou o que é afetado, o que está em jogo e, possivelmente, o que podemos perder. A conexão emocional é importante porque temos mais probabilidade de nos importar com algo quando nos sentimos ligados a isso.”


“Ao mesmo tempo, existe um equilíbrio delicado. Se as imagens emocionais forem excessivamente enfáticas, podem afastar o público ou fazê-lo sentir que o fotógrafo está tentando impor um ponto de vista. Em última análise, um projeto documental forte precisa dos três elementos. Trata-se de encontrar o equilíbrio entre informar, envolver o espectador na atmosfera da história e oferecer um motivo para que ele sinta alguma coisa.”


Pessoa apoiada junto ao corpo de um bovino, sobre solo de terra avermelhada.
Looped: imagem que integra o trabalho documental de Karoliina Kase. ©Karoliina Kase

O que a fotografia consegue comunicar sobre biodiversidade e nossa relação com outras espécies que números e relatórios nem sempre conseguem transmitir?


Karoliina Kase: “A quantidade de informações disponível hoje pode ser esmagadora, e não estamos necessariamente preparados para carregar o peso de tudo o que acontece no mundo. É natural ficarmos insensíveis ou até niilistas diante de um fluxo constante de notícias negativas. Apesar do meu amor pelo meio ambiente e pelos animais, eu mesma enfrento essa dificuldade.”


“Estatísticas e relatórios escritos podem nos fornecer os fatos e o raciocínio lógico por trás de um problema, mas, como seres humanos, também somos movidos pela emoção e pela conexão. A fotografia pode criar essa ligação emocional e aproximar o ato de saber que algo está acontecendo do sentimento de estar verdadeiramente conectado àquilo.”


“Podemos ler que nossos hábitos de consumo alimentam a demanda pela produção animal ou que as atividades humanas estão levando uma espécie à extinção. Mas ver um animal confinado em uma gaiola, ou o retrato de uma ave criticamente ameaçada, sabendo que ela pode estar entre as últimas de sua espécie, torna mais difícil pensar na extinção como apenas mais uma estatística. A fotografia pode tornar essas questões menos abstratas e oferecer um vislumbre das vidas individuais afetadas por elas.”


“Acredito que ver algo com os próprios olhos, mesmo que por meio de uma fotografia, pode transformar nossa relação com um problema. Depois de vê-lo, torna-se mais difícil voltar a um estado de desconhecimento. Isso pode criar uma sensação de conexão e, com ela, um senso de responsabilidade.”


Retrato próximo do rosto de uma canguru com opacidade visível em um dos olhos.
Retrato de uma canguru fêmea com catarata, em um olhar de proximidade com o animal. ©Karoliina Kase

Ave de rapina com asas abertas presa a fios de arame de uma cerca.
Ave de rapina presa a uma cerca de arame, registrada por Karoliina Kase. ©Karoliina Kase

Que orientações você daria a jovens fotógrafos que desejam abordar questões ambientais com responsabilidade, pesquisa e respeito aos seres retratados?


Karoliina Kase: “Primeiro, com o avanço das imagens geradas por inteligência artificial e a diminuição das oportunidades no fotojornalismo, considero importante ter clareza sobre o seu porquê. O que leva alguém a buscar a fotografia ambiental? Um amor genuíno pelo mundo natural, um senso de responsabilidade ou o desejo de contribuir para mudanças? Acredito que essas motivações têm muito mais capacidade de sustentar uma prática de longo prazo e conduzir a projetos profundos do que motivações centradas principalmente em vaidade, busca de emoções fortes ou recompensa financeira.”


“Quando se trata de pesquisa, acho importante escolher um assunto pelo qual se tenha paixão genuína. Mas, a menos que a intenção seja manter o trabalho como um projeto puramente pessoal, o tema também deve ser relevante, atual e, idealmente, oferecer um olhar novo. Diante da enorme quantidade de imagens a que somos expostos, é preciso considerar que acesso, conhecimento ou perspectiva singular podemos acrescentar a uma história.”


“Também acredito na importância de pesquisar os diferentes lados de uma questão. Não necessariamente para validar opiniões opostas, mas porque os problemas ambientais raramente são simples. Ao observar as forças que impulsionam o desmatamento, por exemplo, quase nunca se trata apenas de identificar alguém como vilão. Pessoas que trabalham nessas indústrias podem ter oportunidades econômicas limitadas, enquanto consumidores que impulsionam a demanda muitas vezes estão distantes das consequências de suas escolhas. Compreender essas camadas não justifica práticas destrutivas, mas oferece um quadro mais completo das razões pelas quais elas ocorrem. Uma pesquisa cuidadosa também torna o fotógrafo mais informado e intuitivo em campo.”


“A paciência é algo com que eu mesma ainda tenho dificuldade. Por isso, considero tão importante ter um propósito sólido. Em projetos de longo prazo, precisamos aprender a distinguir o que podemos controlar daquilo que não podemos. Às vezes, um projeto precisa ser abandonado ou seguir outra direção criativa, e tudo bem. É mais saudável concentrar-se na qualidade do trabalho, nas relações desenvolvidas e na maneira como interagimos com os sujeitos fotografados, em vez de medir o sucesso apenas pelo reconhecimento externo. A fotografia é altamente subjetiva, e a indústria nem sempre recompensa o trabalho na proporção do esforço e da dedicação empregados. Isso não deve determinar o valor que atribuímos ao próprio trabalho.”


“Por fim, trate sempre seus sujeitos — pessoas, animais ou o meio ambiente — com respeito. Peça permissão quando for apropriado, comunique-se com clareza, especialmente em situações de vulnerabilidade, e construa confiança por meio de interesse e cuidado genuínos. Em um mundo saturado de informações, imagens chocantes podem atrair atenção e engajamento, mas é importante não deixar que essa pressão comprometa a integridade do trabalho. Não manipule uma história nem apresente seletivamente seus elementos apenas para reforçar seu próprio argumento. É possível ter uma posição firme sobre uma questão e, ainda assim, ser honesto quanto à sua complexidade. Em última análise, nossa responsabilidade como fotógrafos é contar histórias da forma mais verdadeira e cuidadosa possível.”


Vaca preta e branca deitada em área de terra, em fotografia documental de Karoliina Kase.
Vaca identificada como 1802, deitada em uma via de circulação. ©Karoliina Kase

Sobre Karoliina Kase

Karoliina Kase é uma fotógrafa estoniana radicada na Austrália que investiga a relação da civilização com o meio ambiente. Formada com honras em Artes Visuais pela Brown University, teve obras exibidas internacionalmente na Europa, América do Norte, Ásia e Austrália. Seu trabalho recebeu reconhecimento do British Journal of Photography, Vital Impacts, Life Framer e Australian Geographic. Sua fotografia documental e seu jornalismo visual também foram publicados por The Guardian, De Volkskrant e Australian Geographic.


Site oficial: www.karoliinakase.com | Instagram: @karoliinakase.


Notas da redação

Entrevista concedida por e-mail ao Auctoritas Notícias. Tradução e edição em português: Redação Auctoritas Notícias, com preservação do sentido das respostas da entrevistada.


Fotografias: ©Karoliina Kase. Todas as imagens foram cedidas pela autora com autorização de uso editorial exclusivamente nesta reportagem e em sua divulgação nos canais oficiais do Auctoritas Notícias.


Reprodução por terceiros, alterações, cortes e reutilização fora desta matéria não estão autorizados.


Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.

 
 
 

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