Entre montanhas, memória e identidade: Anna Engstler apresenta a vida cultural de Vorarlberg
Para muitos brasileiros, a imagem da Áustria é quase imediatamente associada a Viena, aos palácios imperiais e aos grandes cartões-postais do país. No extremo oeste austríaco, porém, Vorarlberg apresenta outra paisagem cultural: vales, montanhas, dialetos próprios, tradições locais e uma vida cotidiana marcada pela proximidade com Alemanha, Suíça e Liechtenstein.
É nesse contexto que trabalha Anna Engstler. Formada em Antropologia Cultural e Social, ela atua como guia certificada de caminhadas em Vorarlberg desde 2020 e, desde 2026, também como Cultural Mountain Heritage Guide. Seu trabalho combina leitura da paisagem, história, patrimônio cultural e experiência direta com as comunidades e com os modos de vida ligados aos Alpes.
Em entrevista escrita ao Auctoritas Notícias, Anna falou sobre a identidade particular de Vorarlberg, a herança cultural das montanhas, a relação entre turismo e preservação e aquilo que um visitante precisa perceber para compreender a região para além de uma fotografia bonita.

Nota de tradução
As respostas de Anna Engstler foram originalmente enviadas em alemão. O Auctoritas Notícias realizou a tradução integral para o português, preservando o sentido, o tom e a estrutura das falas.
Você estudou Antropologia Cultural e Social e hoje trabalha como guia de caminhadas. Como seu olhar científico sobre a cultura mudou desde que passou a acompanhar pessoas, de forma tão prática, pela paisagem e pelo mundo montanhoso de Vorarlberg?
“Por meio do meu trabalho como guia de caminhadas, meu olhar científico sobre a cultura se tornou muito mais prático. Já não me ocupo da cultura apenas de forma teórica, mas também das pessoas que acompanho pela paisagem e da nossa própria vida aqui.
Meus visitantes se interessam muito por como vivemos: por nossos costumes, nossas tradições, mas também pelas coisas mais cotidianas e pelas particularidades culturais. Muitas vezes, as conversas mais interessantes surgem enquanto caminhamos: sobre o manejo das áreas alpinas, sobre caminhos antigos, sobre a vida nas montanhas ou sobre por que certas coisas são feitas aqui exatamente dessa maneira.
Eu diria que meus estudos me deram as ferramentas para observar com mais atenção. Como guia de caminhadas, hoje posso aplicar esse conhecimento diretamente e conectá-lo à história e às histórias pessoais. Assim, para mim, a paisagem se transforma em um lugar onde a cultura se torna visível e pode ser vivenciada.”
Vorarlberg ocupa, dentro da Áustria, uma posição cultural e geográfica particular. Que características da região, na mentalidade, na língua, nas tradições ou na vida cotidiana, costumam passar despercebidas por quem vem de fora?
“Vorarlberg é culturalmente um pouco diferente do restante da Áustria. Somos de tradição alemânica e temos nosso próprio dialeto: falamos vorarlberguês. Para muitas pessoas de fora da região, essa provavelmente é uma das primeiras particularidades que chama a atenção.
Historicamente, Vorarlberg também esteve geograficamente mais separado do restante da Áustria. O passo do Arlberg foi durante muito tempo uma fronteira natural. Somente com a ferrovia e com o túnel do Arlberg, inaugurado em 1884, a ligação com o Tirol e, portanto, com o restante da Áustria se tornou significativamente mais fácil.
Ao mesmo tempo, estamos no coração de uma região de quatro países, entre Alemanha, Suíça, Liechtenstein e Áustria. Essa proximidade com nossos vizinhos naturalmente influenciou nossa cultura e nossa vida cotidiana.
Acredito que, por isso, Vorarlberg desenvolveu uma consciência própria bastante forte. Somos austríacos, mas também somos vorarlberguenses — e muitas pessoas aqui têm orgulho disso.”
Como Cultural Mountain Heritage Guide, você lida não apenas com a natureza, mas também com o patrimônio cultural das montanhas. Que história, tradição ou marca da presença humana na paisagem mais fascina você pessoalmente?
“O que me fascina especialmente é a história de nossas áreas alpinas. No Klostertal, ainda existem hoje 17 pastagens alpinas que são manejadas todos os verões por trabalhadores e trabalhadoras ligados a essas áreas. Para mim, esse é um belo exemplo de como natureza, agricultura, história e a vida das pessoas estão intimamente conectadas.
Quando caminhamos hoje pelas montanhas, muitas vezes vemos apenas uma bela paisagem. Mas por trás dessa paisagem existe muito trabalho e um conhecimento transmitido de geração em geração: quais áreas são utilizadas e de que maneira, quando o gado sobe para a pastagem alpina, como se lida com o clima e como se vive de acordo com as condições naturais.
Sobre esse tema, escrevi, juntamente com Mathias Klocker, o livro ‘Zweite Heimat. Alpen im Klostertal’, publicado em 2024. Ele trata justamente dessa vida nas áreas alpinas e das pessoas que mantêm essa tradição viva até hoje.”

O turismo pode fortalecer economicamente as regiões montanhosas, mas também transformar a natureza e a cultura local. Onde está, para você, o equilíbrio entre tornar Vorarlberg acessível aos visitantes e proteger aquilo que mantém a região autêntica?
“O turismo é, naturalmente, um importante fator econômico na minha terra natal, o Klostertal. Muitos restaurantes, comércios e serviços que existem aqui provavelmente já teriam desaparecido há muito tempo sem o turismo. Isso também não deve ser esquecido quando se fala sobre os efeitos do turismo.
Ao mesmo tempo, é preciso cuidar para que o turismo não transforme tudo aquilo que, na verdade, dá identidade a um lugar. Para mim, trata-se justamente de encontrar um bom equilíbrio. Prefiro ofertas de boa qualidade a simplesmente buscar a maior quantidade possível de visitantes.
Não precisamos tornar cada lugar acessível ao maior número possível de pessoas nem transformar toda particularidade em um produto turístico. Às vezes, também é importante simplesmente deixar certas coisas e certos lugares existirem e dar espaço às pessoas que vivem aqui.
Vejo nossa região, em primeiro lugar, como um espaço de vida para quem mora aqui e, só depois, como cenário para belas lembranças de férias.”
Se um leitor brasileiro visitasse Vorarlberg pela primeira vez e quisesse compreender a região para além das imagens turísticas clássicas, que experiência ele deveria viver, e o que você gostaria que ele entendesse sobre Vorarlberg ao voltar para casa?
“Nem sempre precisa ser algo incomum. Eu certamente recomendaria uma caminhada nas montanhas do Klostertal. Talvez seja uma imagem turística clássica, mas continua sendo algo belíssimo e mostra muito da nossa região.
Eu também recomendaria assistir a um pôr do sol no Lago de Constança durante o outono ou fazer uma viagem pela ferrovia do Arlberg, de Bludenz até Langen am Arlberg. Assim, é possível desenvolver uma percepção completamente diferente da paisagem e de como os vales e as montanhas estão conectados.
As épocas de que mais gosto em Vorarlberg são a primavera e o outono. Nesses períodos, tudo é mais tranquilo e é possível ver mais da vida normal.
Eu gostaria que os visitantes, depois de sua estadia, não levassem para casa apenas belas montanhas e paisagens, mas compreendessem que essa paisagem também é um espaço de vida. Que, por trás das áreas alpinas, dos caminhos e das aldeias, existem pessoas, histórias e uma longa história de convivência com as montanhas.”

A conversa com Anna Engstler desloca o olhar do visitante para algo que frequentemente se perde quando uma região de montanha é reduzida a cartão-postal. Em Vorarlberg, a paisagem não aparece apenas como beleza natural, mas como resultado de trabalho, memória, circulação, agricultura, idioma e continuidade cultural.
Ao falar das pastagens alpinas, do dialeto, da ferrovia do Arlberg, do turismo e do cotidiano no Klostertal, Anna insiste em uma ideia simples e decisiva: montanhas, vales e aldeias não existem apenas para serem contemplados. São lugares habitados, atravessados por histórias e por pessoas que seguem construindo sua relação com o território.
Talvez esteja aí a chave para compreender Vorarlberg para além da fotografia: perceber que a autenticidade de uma região não está somente naquilo que permanece antigo, mas também na forma como uma comunidade continua vivendo, adaptando e transmitindo aquilo que recebeu.
Anna Engstler é antropóloga cultural e social, guia certificada de caminhadas em Vorarlberg desde 2020 e Cultural Mountain Heritage Guide desde 2026. Dedica grande parte de seu tempo às montanhas, no verão e no inverno, especialmente no Klostertal, Arlberg, Verwall, Rätikon e Silvretta. É coautora, com Mathias Klocker, do livro “Zweite Heimat. Alpen im Klostertal” (2024).
Canais profissionais: Instagram: @anna_engstler | Facebook: Anna Engstler | Site: www.annawandert.at
Matéria editada e revisada pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque. Tradução: Eric Rudhiery Albuquerque



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