ENTREVISTA | BRASIL E URUGUAI Embaixador Rodolfo Nin Novoa destaca integração com o Brasil e aponta potencial de Mato Grosso do Sul
Em entrevista exclusiva ao Auctoritas Notícias, embaixador uruguaio aborda comércio, infraestrutura, Mercosul, cultura e os próximos passos da relação bilateral.

Às vésperas de Brasil e Uruguai completarem dois séculos de relações diplomáticas, a parceria entre os dois países combina uma fronteira de mais de mil quilômetros, intercâmbio econômico, vínculos culturais e uma agenda crescente de integração física e produtiva. Em entrevista exclusiva concedida por escrito ao Auctoritas Notícias, o embaixador da República Oriental do Uruguai no Brasil, Rodolfo Nin Novoa, apresentou a visão uruguaia sobre os principais desafios e oportunidades dessa relação.
Designado embaixador extraordinário e plenipotenciário do Uruguai no Brasil em 2025, Nin Novoa falou sobre projetos de infraestrutura na fronteira, investimentos, comércio, turismo, educação e o futuro do Mercosul. Um ponto especialmente relevante para Mato Grosso do Sul aparece na integração logística: o embaixador destacou o transporte de minério de ferro de Corumbá pela hidrovia Paraguai–Paraná até portos uruguaios, de onde a carga segue para mercados internacionais.
As respostas abaixo foram encaminhadas oficialmente pela Embaixada da República Oriental do Uruguai no Brasil. O texto recebeu apenas padronização ortográfica e editorial pontual para publicação, sem alteração do conteúdo ou do sentido das respostas.
Auctoritas Notícias — Brasil e Uruguai caminham para 200 anos de relações diplomáticas. Quais são hoje os principais eixos dessa parceria e onde ela ainda pode avançar?
Rodolfo Nin Novoa: "A relação entre o Brasil e o Uruguai tem sido historicamente de amizade, boa vizinhança e valores compartilhados. Em 2028 celebraremos 200 anos de relações diplomáticas entre ambos os países, tendo em conta que, já em 1828, com o reconhecimento da Convenção Preliminar de Paz, o Uruguai designou seu primeiro representante diplomático no Brasil".
"Compartilhamos mais de mil quilômetros de fronteira terrestre, uma fronteira viva, vibrante, de paz, de intercâmbio econômico e cultural. Temos sido parceiros na construção de processos de governança global, em vários âmbitos multilaterais, e na construção da integração regional latino-americana e sul-americana. Todas essas linhas de trabalho conjunto continuam ativas hoje, apesar de um contexto global desfavorável para países que querem promover a paz, a cooperação e a integração".
"Os presidentes Lula e Orsi se encontraram nesses dias no âmbito do segmento de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Nessa ocasião, o presidente Lula falou das “ameaças do extremismo político e da desinformação na região e no mundo”. Promover a cooperação para além dessas dificuldades é, e tem sido, uma pedra angular da política exterior do nosso país, especialmente com o Brasil".
"Mas nosso relacionamento não se limita unicamente a declarações de intenção. Estamos trabalhando para melhorar nossa integração física e nossa infraestrutura: hoje estamos perto de começar a construção de uma nova ponte sobre o rio Jaguarão, e já se iniciaram os trabalhos de dragagem na hidrovia da Lagoa Mirim para melhorar as rotas de saída da produção do nordeste do Uruguai através do Rio Grande do Sul. Esses são projetos concretos que podem criar verdadeiras revoluções produtivas e oportunidades de emprego; esse é o verdadeiro sentido de nossa parceria e é nessa direção que queremos continuar cooperando".
Auctoritas Notícias — No campo econômico, onde estão as melhores oportunidades para ampliar comércio, investimentos e cadeias produtivas entre os dois países?
Rodolfo Nin Novoa: "O Brasil tem se consolidado como o principal parceiro comercial do Uruguai na região, apresentando grandes oportunidades para os setores agroindustrial e manufatureiro. Tem também um papel de destaque no Investimento Estrangeiro Direto (IED) no Uruguai, com forte presença nos setores de alimentos, tecnologia e serviços. Grandes grupos econômicos estão presentes no Uruguai não apenas atuando nas exportações, mas também reinvestindo capitais".
"Os estados do Sul e do Sudeste — Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, principalmente — concentram a maioria das exportações do Uruguai, mas vemos também potencial de crescimento no comércio com outros estados, como Paraíba, Pernambuco e Minas Gerais".
"Melhorar a logística é uma condição necessária para criar as condições para esse crescimento. É importante, sobre este ponto, destacar que, com Mato Grosso do Sul, o potencial de aumentar a integração é grande. Já hoje se faz exportação de minério de ferro através da hidrovia Paraguai–Paraná, saindo de Corumbá até portos no Uruguai, de onde a carga é transferida para navios de grande porte com destino à China e à Europa".
Auctoritas Notícias — Que caminho o Uruguai defende para que o Mercosul permaneça relevante diante das transformações da economia internacional?
Rodolfo Nin Novoa: "O aprofundamento da agenda externa do Mercosul tem sido um tema que o Uruguai defendeu historicamente no bloco. Entendemos, sim, que as assimetrias com nossos parceiros são grandes e que os interesses são diversos. Sabemos também que a abertura pode tornar alguns setores estratégicos vulneráveis".
"Mas a aposta coletiva tem que passar pela melhora da competitividade dos nossos sistemas produtivos para reduzir ao máximo nossas vulnerabilidades. Temos que fazer com que a abertura comercial seja uma realidade, primeiro internamente, onde enfrentamos regularmente dificuldades e travas para a implementação de um mercado comum, e, segundo, com novos parceiros extrabloco".
"Esse caminho tem suas dificuldades, mas deve, mesmo assim, ser percorrido: o sucesso do Acordo entre Mercosul e União Europeia nos mostra que o trabalho vale a pena. Esperamos que novas agendas com Canadá, Japão, Emirados, Indonésia e outros possam avançar. Esse é o esforço que o Uruguai está fazendo durante a atual Presidência Pro Tempore".
Auctoritas Notícias — Além da economia, como turismo, educação e cultura podem aproximar ainda mais brasileiros e uruguaios?
Rodolfo Nin Novoa: "A relação entre as culturas dos nossos países é forte e antiga: compartilhamos tradições relacionadas à cultura gaúcha com o Sul do Brasil, mas também compartilhamos a forte influência da matriz cultural africana, que faz parte da música, da dança e até dos cultos, de um e de outro lado da fronteira".
"Os intercâmbios são variados: apresentações, exposições, residências artísticas, participação em eventos e festivais. Este ano, o Brasil, através do Centro Cultural Banco do Brasil, recebeu a maior exposição já realizada no país do artista uruguaio Joaquín Torres García, que percorreu São Paulo, Brasília e está hoje em Belo Horizonte".
"No que diz respeito à educação, tivemos o grande prazer de concretizar este ano uma parceria entre a Administração Nacional de Educação Pública do Uruguai (ANEP) e a Prefeitura de Niterói para inaugurar a primeira escola pública bilíngue português-espanhol do Estado do Rio de Janeiro, a Escola Municipal Dom José Pereira Alves".
"Em 2025, aproximadamente meio milhão de turistas uruguaios visitaram o Brasil, enquanto um número similar de brasileiros viajou ao nosso país. Assinamos este ano um acordo de cooperação para fortalecer o turismo nas regiões de fronteira, melhorar a cooperação técnica no setor entre os países, melhorar a conectividade e realizar ações conjuntas de promoção da região. O setor privado tem acompanhado esse movimento, aumentando a quantidade de rotas aéreas entre os países e desenvolvendo importantes investimentos no setor".
"Estes são apenas alguns exemplos do dinamismo dos intercâmbios que vão além do comércio e que continuam aproximando nossas comunidades cada vez mais".
Auctoritas Notícias — Olhando para os próximos anos, quais devem ser as prioridades da relação bilateral e que mensagem o Uruguai deixa aos brasileiros?
Rodolfo Nin Novoa: "Por ocasião da semana de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, os presidentes Lula e Orsi se reuniram para conversar sobre vários temas: comércio bilateral, integração regional, defesa do multilateralismo e da democracia, infraestrutura e cooperação".
"A agenda é extensa e todos os temas revestem-se de importância. Mas, no contexto atual, a parceria do Brasil na defesa do multilateralismo, da democracia e de uma governança global com regras claras e respeitadas por todos é, sem dúvida, fundamental para o Uruguai, para a região e para o mundo todo".
"No que diz respeito à agenda bilateral, as prioridades estratégicas estão focalizadas na integração física, na captação de investimentos e na integração produtiva e comercial. Também desejamos dialogar para flexibilizar e fortalecer o Mercosul, que é nosso primeiro âmbito de inserção internacional".
"Manter um dinamismo positivo na agenda e fortalecer o diálogo construtivo que tem caracterizado as relações entre nossos países é a principal tarefa desta representação diplomática".
A entrevista mostra uma relação bilateral que combina história e pragmatismo. Ao mesmo tempo em que Brasil e Uruguai se aproximam do bicentenário de suas relações diplomáticas, a agenda descrita pela representação uruguaia está concentrada em questões concretas: infraestrutura, logística, investimentos, integração produtiva, turismo, educação e abertura comercial.
Para Mato Grosso do Sul, a menção direta a Corumbá e à hidrovia Paraguai–Paraná evidencia que essa aproximação internacional também passa pelo Centro-Oeste brasileiro. Em um cenário de cadeias produtivas cada vez mais conectadas, a posição geográfica do estado pode ganhar relevância na ligação entre o interior do continente e os portos uruguaios.
Ao Auctoritas Notícias, a Embaixada do Uruguai reforçou como objetivo manter o diálogo construtivo entre os dois países e aprofundar uma parceria que, em 2028, completará 200 anos de relações diplomáticas.
Crédito: Entrevista concedida por escrito pela Embaixada da República Oriental do Uruguai no Brasil ao diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.



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