Fé, razão e esperança: Luiz Sureki analisa os desafios da Teologia Fundamental no mundo contemporâneo
Professor e pesquisador da FAJE discute Revelação, ciência, crítica filosófica, pluralismo religioso e os limites das imagens humanas de Deus.
Por Eric Rudhiery Albuquerque | Auctoritas Notícias

Em uma época marcada pelo avanço acelerado da ciência e da tecnologia, pela secularização e pela convivência entre diferentes tradições religiosas, a relação entre fé e razão continua produzindo algumas das questões mais difíceis da filosofia e da teologia. Para o professor e pesquisador Luiz Carlos Sureki, SJ, pensar a fé de maneira intelectualmente responsável exige justamente não fugir dessas perguntas.
Diretor do Departamento de Filosofia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, Sureki é doutor em Teologia pela Leopold-Franzens Universität Innsbruck, na Áustria, e doutor em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Sua atuação acadêmica concentra-se especialmente na Filosofia da Religião e na Teologia Fundamental.
Em entrevista ao Auctoritas Notícias, o pesquisador explica que a Teologia Fundamental procura refletir criticamente sobre os fundamentos da fé cristã, sua inteligibilidade e as razões que permitem ao ser humano acolhê-la. Ao longo da conversa, aborda fé e ciência, o papel da filosofia, as críticas modernas à religião, o ateísmo, o pluralismo religioso e a própria maneira como Deus é pensado.
Auctoritas Notícias — Como o senhor explicaria ao leitor não especializado o que é a Teologia Fundamental e qual sua importância para a reflexão cristã contemporânea?
Luiz Sureki — "A Teologia Fundamental é a disciplina do curso de teologia que procura refletir sobre os fundamentos da fé cristã e sobre as razões que tornam essa fé compreensível e responsável. Seu ponto de partida é a Revelação divina, entendida não simplesmente como um conjunto de verdades transmitidas por Deus, mas, antes de tudo, como autocomunicação do próprio Deus na história. Antes de comunicar algo, Deus comunica a si mesmo. Para a fé cristã, essa autocomunicação divina encontra em Jesus Cristo uma expressão histórica singular e decisiva".
"Há uma conhecida passagem bíblica da Primeira Carta de Pedro que expressa muito bem uma de suas tarefas principais: estar pronto a “dar razões da esperança” (1Pd 3,15). É interessante observar que o texto não diz simplesmente “dar razões da fé”, mas razões da esperança. Isso significa que a fé possui uma dimensão racional: ela pode e deve apresentar suas razões, dialogar, formular perguntas e submeter suas próprias afirmações à reflexão crítica. Crer não significa abandonar a inteligência".
"É aqui que a esperança corrige as pretensões de certeza absoluta. Quem espera não possui antecipadamente aquilo que espera. Há razões para crer, mas essas razões não eliminam completamente a possibilidade de não crer, porque a fé não decorre necessariamente de suas razões como a conclusão de uma demonstração: entre reconhecer razões para crer e efetivamente crer permanece o espaço da confiança, da liberdade e da esperança".
"É nesse horizonte que a Teologia Fundamental adquire particular importância no mundo contemporâneo. Ela se encontra numa espécie de fronteira: entre fé e razão, Revelação e história, cristianismo e cultura, tradição e crítica, experiência religiosa e secularidade. Sua tarefa não consiste em oferecer respostas prontas para proteger a fé das perguntas contemporâneas, mas em permitir que a própria fé se deixe interrogar por elas".
Auctoritas Notícias — Em sua atuação acadêmica, o senhor trabalha especialmente na relação entre Filosofia da Religião e Teologia Fundamental. Onde essas duas áreas se encontram e em que pontos mantêm métodos e objetivos distintos?
Luiz Sureki — "Filosofia da Religião e Teologia Fundamental encontram-se em muitos pontos, mas não são a mesma disciplina. A diferença pode ser explicada inicialmente pelo lugar de onde cada uma começa a perguntar. A Teologia Fundamental parte da Revelação divina acolhida na fé e procura compreender seus fundamentos, sua inteligibilidade e sua credibilidade. A Filosofia da Religião, por sua vez, parte do fenômeno religioso como uma das grandes manifestações da existência humana e pergunta filosoficamente por sua estrutura, seu sentido, suas condições de possibilidade e sua relação com a realidade como um todo".
"Essa distinção é importante porque a Filosofia da Religião não pode tomar o cristianismo como medida de toda religião. A religião também não pode ser reduzida a doutrinas sobre Deus. Ela envolve aquilo que pensamos e cremos, mas também o modo como agimos, sentimos, celebramos, construímos comunidades e nos relacionamos com o mundo".
"Considero particularmente fecundo compreender como adual a relação entre Filosofia da Religião e Teologia Fundamental. “Adual” significa literalmente “não-dois”: não se trata de confundir ou reduzir uma disciplina à outra, mas de reconhecer que diferença não significa necessariamente separação".
"A filosofia pode perguntar à teologia se suas afirmações são conceitualmente coerentes, se suas imagens de Deus são adequadas e se sua linguagem permanece inteligível no mundo contemporâneo. A teologia, por sua vez, coloca diante da filosofia uma tradição milenar de experiências, símbolos e interpretações da realidade capaz de suscitar novas perguntas e ampliar o horizonte da reflexão filosófica".

Auctoritas Notícias — Em uma sociedade cada vez mais marcada pela ciência, pela tecnologia e pelo pensamento secular, de que maneira fé e razão podem dialogar sem que uma seja reduzida à outra?
Luiz Sureki — "Creio que o primeiro passo seja abandonar a ideia de que fé e razão são necessariamente concorrentes. O desenvolvimento das ciências modernas modificou profundamente nossa compreensão do universo, da vida e do próprio ser humano. A tecnologia transformou não apenas aquilo que podemos fazer, mas também nossa maneira de habitar o mundo e de nos relacionarmos uns com os outros".
"Uma fé que ignorasse essas transformações correria o risco de falar a um mundo que já não existe. Mas seria igualmente precipitado concluir que o avanço do conhecimento científico torna a religião simplesmente desnecessária".
"Parte do conflito entre ciência e religião surgiu quando se pretendeu que ambas respondessem às mesmas perguntas utilizando os mesmos métodos. Deus não é uma hipótese destinada a preencher provisoriamente aquilo que ainda não conseguimos explicar.
As descobertas científicas modificam nossa compreensão de nós mesmos e levantam questões filosóficas, antropológicas e éticas. Pensemos, por exemplo, nas possibilidades abertas pela inteligência artificial, pela engenharia genética ou pelas pesquisas sobre a origem e o futuro do universo".
"Quando perguntamos por Deus como se estivéssemos procurando mais uma realidade dentro do universo, já começamos a formular mal a questão. Deus não pode ser simplesmente acrescentado ao inventário das coisas existentes. A questão teológica e metafísica é muito mais radical: trata-se de perguntar pela relação entre Deus e a totalidade da realidade, pelo fundamento último da realidade e pelo sentido de tudo aquilo que existe".

Auctoritas Notícias — A crítica filosófica à religião, presente em diferentes autores da modernidade e da contemporaneidade, deve ser vista pela teologia apenas como um desafio ou também pode contribuir para o amadurecimento da própria reflexão sobre a fé?
Luiz Sureki — "Sem dúvida, pode contribuir — e muito. A crítica filosófica à religião não precisa ser recebida pela teologia apenas como uma ameaça externa. Em muitos casos, ela pode funcionar como uma provocação crítica, obrigando a fé a examinar suas próprias representações, sua linguagem e suas práticas.
Nem tudo aquilo que historicamente foi dito ou feito em nome de Deus corresponde necessariamente àquilo que a própria fé pretende afirmar acerca de Deus. Uma teologia intelectualmente responsável não deveria começar simplesmente refutando a crítica, mas perguntando primeiro: há algo verdadeiro naquilo que está sendo criticado?.
"Toda linguagem religiosa é também linguagem humana. Falamos de Deus a partir de determinada época, cultura, tradição e experiência histórica. Por isso, existe sempre o risco de reduzir Deus às dimensões de nossas próprias representações".
"Também algumas formas contemporâneas de ateísmo podem prestar, involuntariamente, um serviço à teologia quando criticam um “Deus” concebido como um ser muito poderoso situado em algum lugar além do mundo. Talvez devamos perguntar se um Deus assim concebido não foi, antes, apequenado por nossas próprias categorias".
"Fé e crítica não precisam excluir-se. Uma fé que nunca se deixa interrogar pode facilmente confundir fidelidade com fechamento; uma crítica que já decidiu antecipadamente que toda experiência religiosa é irracional corre, por sua vez, o risco de não compreender adequadamente aquilo que pretende criticar".

Auctoritas Notícias — Diante do pluralismo religioso e das transformações culturais atuais, quais são os principais desafios para a Filosofia da Religião e a Teologia Fundamental hoje?
Luiz Sureki — "O primeiro grande desafio consiste em levar verdadeiramente a sério o pluralismo religioso. Durante muito tempo, sobretudo no Ocidente, refletiu-se sobre a religião tomando o cristianismo como referência quase exclusiva. Hoje sabemos que o fenômeno religioso é muito mais amplo.
Esse reconhecimento não significa afirmar que todas as religiões dizem a mesma coisa ou que suas diferenças sejam secundárias. O diálogo autêntico começa justamente quando levamos as diferenças a sério".
"Para a Teologia Fundamental, a questão torna-se particularmente exigente. Ela precisa continuar perguntando pela singularidade da Revelação cristã e, especialmente, pelo significado de Jesus Cristo, sem ignorar a amplitude da ação e da onipresença de Deus.
Há ainda outro desafio, proveniente das profundas transformações de nossa compreensão do ser humano e do mundo. Ciência e tecnologia alteram continuamente aquilo que sabemos sobre a vida, o cosmos e nós mesmos".
"A inteligência artificial, as biotecnologias, a crise ecológica e as novas formas de comunicação não apresentam apenas problemas técnicos; levantam perguntas sobre liberdade, responsabilidade, corporeidade, comunidade, sentido e futuro.
No fundo, Filosofia da Religião e Teologia Fundamental encontram-se hoje diante de uma tarefa simultaneamente intelectual e existencial: pensar a religião num mundo plural, científico, tecnológico e secular sem fugir das perguntas que esse mundo dirige tanto ao filósofo como ao teólogo".
"Creio que aqui podemos retornar ao ponto de onde começamos: a esperança. As religiões, apesar de todas as suas diferenças, testemunham de muitas maneiras que o ser humano não se satisfaz simplesmente com aquilo que já é. Ele pergunta pela plenitude, pela justiça, pela superação do sofrimento e da morte, pelo sentido último de sua existência".
Sobre o entrevistado
Luiz Carlos Sureki, SJ, é professor e pesquisador da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e diretor do Departamento de Filosofia da instituição. É doutor em Teologia pela Leopold-Franzens Universität Innsbruck, na Áustria, e doutor em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Atua especialmente nas áreas de Filosofia da Religião e Teologia Fundamental. ORCID informado pelo entrevistado: 0000-0002-9829-3862.
Nota da edição
A entrevista foi respondida por escrito por Luiz Sureki, SJ. Para adequação ao formato jornalístico do Auctoritas Notícias, o material foi organizado em blocos temáticos e recebeu edição de extensão, pontuação e apresentação, preservando o conteúdo e o sentido das respostas encaminhadas pelo entrevistado.
Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.



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