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José Gonga: talento, ética e compromisso que honram o jornalismo angolano

Foto do escritor: Eric Rudhiery
Eric Rudhiery
5 de set.
5 min de leitura

Em entrevista exclusiva concedida ao diretor de Marketing do Portal Auctoritas Notícias, Eric Rudhiery Albuquerque, o repórter sénior do Jornal Expansão falou sobre sua trajetória, os desafios da profissão, a transformação digital e os vínculos entre Angola e Brasil.


José Monteiro Gonga - Foto: Manuel Tomás
José Monteiro Gonga - Foto: Manuel Tomás

José Monteiro Gonga nasceu em maio de 1992, em Malanje. Jornalista há seis anos, cobre economia, negócios, tecnologia e transformação digital em Angola. Em 2023, conquistou o 2.º Lugar no Prémio Nacional de Jornalismo, na Categoria de Imprensa. É também comentador residente no programa de rádio Ponto Ao e, desde o início deste ano, atua como repórter sénior do Jornal Expansão.


Segue a entrevista:


Como nasceu seu interesse pelo jornalismo e de que forma a formação profissional no CEFOJOR contribuiu para sua entrada e desenvolvimento na profissão?


“Sempre tive uma relação muito boa com a escrita e já fui um ouvinte fervoroso de programas informativos de rádio; provavelmente foi essa combinação de escrita e audição que despertou o jornalismo em mim. O meu trajecto no jornalismo, porém, começou em 2013, por iniciativa própria e por um amadorismo ainda virgem: dirigi um jornal mural durante uma formação profissional dirigida a técnicos de processos industriais para a produção de açúcar em Angola. A formação foi orientada pelo SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) do Brasil, ao longo de um ano e meio.


Era um jornal de entrevista, arte e opinião, tudo escrito a sangue frio (papel e caneta). Entrevistava os colegas ao longo das viagens, em percursos de 75 km entre Malanje (sede provincial) e Cacuso, um município da mesma província. Foi assim que descobri que era o jornalismo que fazia sentido para mim.


Em 2020, entrei para o CEFOJOR para lapidar a minha audição e o meu faro, que, entre outros preceitos, são a base de um jornalista. O CEFOJOR ensinou-me a teoria, mas foi na redacção do Jornal Expansão, onde me juntei em 2021 como estagiário, que ganhei o sentido crítico, a visão analítica e outras ferramentas que continuam a fazer de mim jornalista. Afinal, jornalista não se faz, vai se fazendo: cada história é sempre uma história nova.”


José Monteiro Gonga - Foto: Manuel Tomás
José Monteiro Gonga - Foto: Manuel Tomás

Em aproximadamente seis anos de carreira, quais foram os principais desafios que encontrou para se afirmar como jornalista e o que mais aprendeu nesse período?


“O jornalismo, em termos gerais, é uma profissão com desafios próprios. Mas depois as geografias impõem outros desafios particulares. Em Angola, o acesso à informação ainda não é fácil: muitos organismos oficiais não comunicam regularmente nem disponibilizam informações, ainda mais quando se é novo na profissão. Este tem sido o maior desafio, embora, à medida que me vou afirmando, essa barreira tenha vindo a reduzir.


Outro desafio foi adaptar-me à linguagem económica, o que me obrigou a estar constantemente a ler jornais nacionais e estrangeiros para compreender melhor os fenómenos e analisá-los com mais consistência. A equipa do jornal tem ajudado imenso a entender essa linguagem e a ser cada vez melhor. Uma das coisas mais importantes que aprendi é a ter sentido crítico e desconfiado, e a buscar até ao limite o contraditório, mesmo que nem sempre seja fácil.”


Parte do seu trabalho envolve temas como economia, tecnologia, telecomunicações e transformação digital. Na sua visão, como essas áreas estão mudando a vida econômica e social de Angola e o próprio trabalho dos jornalistas?


“Em Angola sente-se que há uma enorme pretensão de avançar para a transformação digital, devido à efervescência da sua população jovem e à informalidade económica, que criam imensas oportunidades para inovar. O jornal tem procurado dar visibilidade a essas iniciativas, cobrindo startups e políticas públicas de digitalização. A transformação digital está a mudar, de forma paulatina, a vida social e económica em Angola, mas há ainda muito trabalho a ser feito, sobretudo em munir o ecossistema de startups de alternativas de investimento e em criar infraestruturas de telecomunicações nas zonas rurais.


O Banco Nacional de Angola criou, inspirado no modelo brasileiro, um arranjo de pagamento chamado Kwik (Kwanza Instantâneo), que já começa a fazer sucesso e a entrar nos pequenos negócios que antes não tinham acesso a contas bancárias, com vista a aumentar a inclusão financeira. Aliás, a área que mais se tem transformado digitalmente é a financeira, que é também o sector mais bem regulado e robusto do país, juntamente com petróleo e gás.


Do ponto de vista do trabalho do jornalista, as novas tecnologias trazem ferramentas que permitem focar-se mais na análise, na apuração e no texto. Isto porque o trabalho mais braçal pode ser terceirizado à tecnologia, por exemplo, encontrar padrões em pilhas de documentos ou transcrever áudio. Isso permite que o jornalista seja melhor, embora o jornalismo mais elaborado e paciente esteja, em certa medida, a ser relegado.”


Brasil e Angola compartilham língua, história e vínculos culturais importantes. Como jornalista angolano, que oportunidades o senhor enxerga para ampliar a troca de informação, experiências profissionais, negócios, tecnologia e cultura entre os dois países?


“Eu consumo muito jornalismo brasileiro e acho-o fascinante, didáctico e muito mais simples. Aqui já existe uma grande apetência pelo intercâmbio com o Brasil, algo que vivi na primeira pessoa quando tive a oportunidade de receber uma formação profissional de um ano e meio pelo SENAI, com professores brasileiros, uma experiência genuinamente muito agradável.


Essa mesma vontade estende-se ao jornalismo. As oportunidades estão abertas à medida que os dois governos estreitam relações. Podem criar-se espaços para cobertura conjunta de temas da lusofonia, ou apenas dos dois países, além de programas de intercâmbio de jornalistas. Ligado a isto está também o campo da formação, onde se pode criar espaço para formar jornalistas em matérias específicas, uma carência que ainda existe em Angola.


Para além do jornalismo, há ainda o ramo dos negócios. Como deve saber, a diversificação económica de Angola assenta na agricultura e na agro-indústria, sectores em que o Brasil tem bastante experiência para investir e ajudar o nosso país a alcançar a auto-suficiência alimentar, por exemplo. E essa proximidade não se limita à economia: a cultura brasileira, nomeadamente a música e as artes audiovisuais (telenovelas e, mais recentemente, os canais do YouTube), faz parte do dia-a-dia dos angolanos há muito tempo.”


Para um jovem que hoje pensa em seguir o jornalismo em Angola, o que o senhor diria sobre formação, ética, preparação e os desafios reais da profissão?


“O jornalismo é uma profissão de eternos aprendizes; faz-se com formação constante. Pode não ser a formação tradicional; a leitura e o acompanhamento diário dos fenómenos sociais, económicos e políticos são também parte importante da formação contínua. Por isso, diria que se formem sempre.


Um facto importante que aprendi é que a ética do jornalista tem origem no cidadão e é codificada nos códigos deontológicos das redacções, mas, legitimamente, continua a depender do crédito que o cidadão concede. Ao jovem que pensa em seguir o jornalismo em Angola, diria que não é uma profissão para se ter uma vida financeira desafogada, sendo que a valorização financeira do jornalismo ainda é um desafio. Por isso, quem quiser entrar no jornalismo deve pensar bem sobre a vida que pretende ter.”


José Monteiro Gonga - Foto: Manuel Tomás
José Monteiro Gonga - Foto: Manuel Tomás

A história de José Gonga revela uma trajetória construída com dedicação, formação contínua e profundo respeito pela responsabilidade de informar. Sua atuação fortalece o jornalismo angolano e contribui para aproximar ainda mais Angola e Brasil por meio da informação, da cultura e da troca de experiências.

 
 
 

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