Lula ou Flávio: quem realmente conseguiria baixar os juros no Brasil?
- Eric Rudhiery
- 17 de ago.
- 3 min de leitura
Com a Selic em 14% ao ano, a eleição reacende a expectativa por crédito mais barato. Mas nem Lula nem Flávio Bolsonaro poderão simplesmente mandar o Banco Central reduzir a taxa.
A economia deve ocupar espaço central na eleição de 2026, mas uma questão interessa diretamente ao bolso do brasileiro: quem vencer a Presidência conseguirá baixar os juros?
Hoje, a Selic está em 14% ao ano. Apesar da recente trajetória de queda, o custo do crédito continua elevado para famílias e empresas. Em muitas modalidades, os juros efetivamente pagos pelos consumidores permanecem muito acima da taxa básica.
Mas existe um ponto que precisa ser entendido antes de comparar Lula e Flávio Bolsonaro: o presidente da República não decide sozinho a Selic.
A taxa básica é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central.
Desde a aprovação da autonomia do Banco Central, sua diretoria possui mandatos próprios. Na prática, o presidente pode criticar os juros, defender cortes e conduzir uma política econômica que favoreça uma redução, mas não pode simplesmente ordenar ao Copom: “baixe a Selic”.
O Banco Central observa principalmente inflação, expectativas para os preços, atividade econômica, câmbio, situação fiscal e cenário internacional.
Por isso, qualquer promessa eleitoral de juros baixos precisa passar pela realidade econômica.
E Lula?
Um novo governo Lula poderia contribuir para juros menores principalmente por meio das contas públicas.
Se o governo conseguir controlar despesas, reduzir incertezas fiscais, melhorar as expectativas de inflação e transmitir segurança sobre a trajetória da dívida pública, o Banco Central tende a encontrar mais espaço para continuar reduzindo a Selic.
O desafio está justamente aí.
A dívida bruta brasileira já ultrapassa 80% do PIB, enquanto o setor público gasta centenas de bilhões de reais por ano apenas com juros.
Quanto maior a percepção de risco sobre as contas públicas, maior pode ser a pressão sobre dólar, inflação e juros.
Lula também possui uma visão econômica de maior participação do Estado nos investimentos e políticas públicas. Isso não significa automaticamente juros maiores, mas aumenta a importância de demonstrar de onde virão os recursos e como a dívida será controlada.
Portanto, Lula não poderá simplesmente baixar a Selic. Para conseguir juros menores de forma sustentável, precisará convencer o mercado e o próprio Banco Central de que inflação e contas públicas estão sob controle.
E Flávio Bolsonaro?
Flávio Bolsonaro também não teria autoridade para determinar um corte da Selic.
A diferença estaria na estratégia econômica apresentada.
Sua equipe vem discutindo uma política fiscal mais rígida, incluindo uma possível regra vinculada ao tamanho da dívida pública e maior controle sobre o crescimento real das despesas.
Em teoria, uma política fiscal mais austera poderia diminuir a percepção de risco do Brasil, ajudar na valorização dos ativos nacionais e facilitar o trabalho do Banco Central.
Se o governo reduz o crescimento da dívida e transmite confiança sobre o futuro das contas públicas, o mercado tende a exigir um prêmio menor para financiar o país.
Mas existe uma diferença importante entre propor cortes e conseguir executá-los.
Mudanças profundas nos gastos públicos precisam passar pelo Congresso e frequentemente atingem áreas politicamente sensíveis. Portanto, também não existe garantia de que uma eventual vitória de Flávio produziria automaticamente juros baixos.
Hoje, seria precipitado afirmar que Lula ou Flávio necessariamente entregaria a menor Selic.
O resultado dependeria muito mais da política econômica efetivamente adotada depois da eleição.
Um governo que gastar muito mais do que arrecada, elevar a dívida e aumentar a desconfiança pode dificultar a redução dos juros.
Por outro lado, um governo capaz de controlar inflação, organizar as contas públicas, melhorar a produtividade e aumentar a confiança pode abrir espaço para cortes maiores pelo Banco Central.
Também é importante lembrar que reduzir a Selic não significa automaticamente crédito barato no dia seguinte.
Os juros cobrados em cartão de crédito, empréstimos pessoais, financiamentos e cheque especial incluem inadimplência, impostos, custos bancários e margem das instituições financeiras.
Por isso, mesmo quando a Selic começa a cair, o consumidor pode levar algum tempo para sentir uma diferença significativa.
O debate econômico de 2026 não deveria ser apenas sobre quem promete baixar os juros.
A pergunta mais importante talvez seja: qual candidato conseguirá criar as condições para que o Banco Central possa reduzir os juros sem provocar uma nova alta da inflação?
Nem Lula nem Flávio terão um botão para controlar a Selic.
Mas o próximo presidente terá influência direta sobre gastos públicos, impostos, dívida, confiança, reformas econômicas e relação com o Congresso.
E serão justamente essas decisões que poderão determinar se o Brasil finalmente conseguirá conviver com juros menores ou continuará entre os países com uma das taxas reais mais elevadas do mundo.



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