Opinião: Minha maior Decepção
- Eric Rudhiery Albuquerque

- 30 de mar.
- 3 min de leitura
Pensei bem antes de escrever esse artigo. Não é o tipo de tema que eu gosto de expor assim. Acho que nunca escrevi nada a respeito nesse jornal. Falar de Igreja, para mim, é algo sério demais. Como teólogo, sempre evitei entrar nesse tipo de debate público raso. Mas chega uma hora em que o silêncio começa a incomodar mais do que a crítica.
E talvez você concorde comigo no caso a seguir...
Eu estava no Instagram, vendo algumas coisas aleatórias, quando apareceu o vídeo de uma igreja de algum lugar do Brasil. Palco grande, luz baixa, parede preta, fumaça subindo, banda tocando, jovens chorando, câmeras bem posicionadas captando cada reação. Um espetáculo bem produzido. Alguém dizendo algo como: seja você mesmo, você é maravilhoso ou algo nesse sentido
Se não estivesse descrito no vídeo que era uma igreja, eu não saberia o que era. Qualquer pessoa diria que era um evento, um show, uma casa noturna.
E foi exatamente isso que aconteceu nos comentários.
Muita gente falou o óbvio. “Parece uma boate”. “Isso não parece igreja”. E então veio o que mais me chamou atenção. A própria igreja respondendo de forma ríspida. Dizendo que as pessoas não sabiam do que estavam falando. Que não podiam julgar. Que não entendiam o que Deus estava fazendo ali.
E eu fui lendo comentário por comentário como quem acompanha uma série. Porque, dessa vez, o senso comum estava certo. Eu estava concordando com a maioria dos comentários.
Ou seja, todo mundo estava errado. Eles, não.
E aqui começa o problema.
Existe uma diferença enorme entre ser criticado injustamente e ser incapaz de reconhecer o óbvio. Quando muitas pessoas, sem combinar nada entre si, apontam a mesma coisa, talvez valha a pena ao menos parar e refletir.
Mas hoje isso quase não acontece.
Criou-se uma cultura onde qualquer crítica é tratada como ataque. Onde discordar virou pecado. Onde admitir erro parece fraqueza. E então cada um passa a viver dentro da sua própria versão da realidade.
E isso não é só sobre uma igreja em particular...
Isso é um retrato do que a igreja evangélica brasileira está se tornando.
E aqui vai um ponto que poucos querem tocar.
Hoje, boa parte das igrejas evangélicas não sabem o básico da própria fé. Não sabem o que é uma confissão de fé. Nunca ouviram falar de Martinho Lutero além de uma citação solta. Não sabem o que é exegese. Não fazem ideia do que seja hermenêutica. E antes que alguém distorça, não estou dizendo que todo líder precisa ser um acadêmico ou viver dentro de um seminário.
Mas não saber nada já é demais.
Estamos falando de gente que sobe em um púlpito para ensinar algo que já é difícil por natureza. A Bíblia exige cuidado, estudo, responsabilidade. Não é opinião pessoal. Não é improviso emocional.
Só que hoje parece mais fácil abrir uma igreja em cada esquina e ensinar aquilo que o achismo ditar do que se dedicar e estudar nem que seja o mínimo necessário para ensinar com seriedade e autoridade.
E isso tem um custo.
A liturgia foi sendo deixada de lado. Doutrina não existe mais. O culto virou entretenimento. A mensagem foi sendo substituída por sensação. O ensino deu lugar ao improviso. E o resultado está aí, visível para qualquer um que queira ver.
A credibilidade está indo embora.
A sociedade olha para a igreja evangélica brasileira com cada vez mais desconfiança. E, em muitos casos, com razão. Não por causa do Evangelho, mas por causa da forma como ele tem sido tratado. Imaturidade, despreparo, vaidade e, em alguns casos, má intenção mesmo.
Líder que não gosta de estudar não deveria ser líder. Não precisa gastar rios de dinheiro com formação, faculdade, especialização... mas precisa, no mínimo, ter respeito pelo que está ensinando. Precisa saber falar, se expressar, entender o texto que está lendo.
Porque não dá para tratar algo sagrado com descuido.
E não, isso não é sobre estética apenas. Não é sobre luz, fumaça ou palco. Isso tudo é só o sintoma. O problema é mais profundo.
É a perda de referência.
É a troca da verdade pelo efeito.
É a substituição do conteúdo pela performance.
O caso daquela igreja é só um exemplo. Um desabafo, talvez. De alguém que olha para o que a igreja já foi, para o que ela poderia ser, e compara com o que ela está se tornando.
E se preocupa.
Talvez esse texto soe duro. Mas não é raiva. É decepção. É preocupação real com o rumo das coisas.
Até que ponto estamos dispostos a ouvir quando dizem que estamos errados?
Porque ignorar todo mundo não é sinal de firmeza. Às vezes, é só o primeiro passo para se perder de vez.




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