Processo de reciprocidade abre novo capítulo de tensão entre Lula e Trump
- Giovana Cáceres

- 14 de ago.
- 3 min de leitura
Relação entre os presidentes passou por críticas, tarifas, sanções e tentativas de aproximação desde o início do segundo mandato de Donald Trump

O governo brasileiro abriu um novo capítulo de tensão na relação com os Estados Unidos ao iniciar o processo de reciprocidade contra o país norte-americano em resposta ao tarifaço imposto sobre produtos brasileiros.
A medida amplia uma relação marcada por sucessivos episódios de confronto entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, que, ao longo de cerca de um ano e meio de convivência no comando das duas maiores democracias do Ocidente, alternaram momentos de forte atrito com tentativas de aproximação diplomática.
A relação já começou sob tensão. Durante a campanha presidencial americana de 2024, Lula declarou apoio à democrata Kamala Harris, adversária de Trump. Após retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump não manteve a embaixadora indicada pelo governo de Joe Biden, e a representação diplomática americana no Brasil passou a ser conduzida por um encarregado de negócios.
Tarifa de 50% elevou o tom
O principal ponto de ruptura ocorreu quando Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. Ao justificar a medida, o presidente americano citou, entre outros argumentos, a situação judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Lula reagiu publicamente e endureceu o discurso contra a decisão americana.
A relação, entretanto, teve uma tentativa de reaproximação meses depois. Um encontro de apenas 39 segundos entre Lula e Trump nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro, foi descrito pelo próprio presidente americano como marcado por uma “química excelente”.
O episódio abriu espaço para novos contatos entre os governos e culminou em um encontro entre os dois presidentes na Malásia, em outubro. Naquele período, os Estados Unidos também flexibilizaram parte das tarifas aplicadas ao Brasil e retiraram determinados produtos da lista de sobretaxação.
Encontro na Casa Branca trouxe expectativa de distensão
Em maio deste ano, Lula esteve na Casa Branca para uma reunião de aproximadamente três horas com Trump, incluindo um almoço entre os dois presidentes.
O encontro alimentou expectativas de uma nova fase de diálogo entre Brasília e Washington. A tentativa de aproximação, porém, não impediu a continuidade das divergências entre os dois governos.
Poucas semanas depois, os Estados Unidos classificaram as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, apesar das manifestações contrárias do governo brasileiro.
Na sequência, novas medidas comerciais voltaram a pressionar a relação.
Novas tarifas e investigações comerciais
Os Estados Unidos também avançaram com uma proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros após uma investigação comercial baseada na Seção 301 da legislação americana.
Outro procedimento envolvendo supostas falhas relacionadas ao chamado “trabalho forçado” alcançou dezenas de países, entre eles o Brasil, com previsão de possíveis impactos tarifários.
O cenário tornou-se ainda mais complexo com a disputa envolvendo medidas diplomáticas e representantes dos dois países.
Crise diplomática também chegou às embaixadas.
Em junho deste ano, Trump indicou Daniel Pérez para ocupar o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil. O anúncio, porém, ocorreu antes do envio formal do agrément ao governo brasileiro — procedimento diplomático utilizado para consultar o país sobre a aceitação de um representante estrangeiro.
O documento foi posteriormente encaminhado e o governo brasileiro autorizou a indicação.
Em resposta, os Estados Unidos alteraram o status do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, restringindo sua possibilidade de entrar e sair livremente do território americano.
Brasil abre processo de reciprocidade.
Agora, a disputa entra em uma nova etapa.
O governo brasileiro informou que notificou os Estados Unidos sobre o início do processo de reciprocidade em razão das tarifas aplicadas aos produtos brasileiros.
A medida representa mais um episódio de uma relação que, desde o retorno de Trump à Presidência dos Estados Unidos, tem sido marcada por uma combinação de pressão comercial, divergências políticas, medidas diplomáticas e tentativas pontuais de diálogo.
Para o Brasil, o desafio passa a ser administrar os efeitos econômicos das tarifas sem ampliar ainda mais o desgaste diplomático com seu principal parceiro comercial, enquanto Brasília e Washington seguem tentando encontrar espaço para negociação em meio à escalada das medidas de retaliação.



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