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Abigail Marsh explica o que altruísmo, empatia, medo e psicopatia revelam sobre o comportamento humano

Foto do escritor: Eric Rudhiery
Eric Rudhiery
29 de set.
5 min de leitura

Em entrevista ao Auctoritas Notícias, a neurocientista Abigail Marsh, da Georgetown University, explica o que pesquisas sobre altruísmo, empatia, medo e psicopatia revelam sobre o comportamento humano.


Prof. Abigail Marsh. Foto: Georgetown University / imagem enviada pela entrevistada.
Prof. Abigail Marsh. Foto: Georgetown University / imagem enviada pela entrevistada.

Por que algumas pessoas arriscam tempo, recursos e até a própria segurança para ajudar desconhecidos? A psicóloga e neurocientista Abigail Marsh investiga justamente os mecanismos que ajudam a explicar comportamentos que vão do altruísmo extraordinário à psicopatia. Professora do Departamento de Psicologia e do Programa Interdisciplinar de Neurociência da Georgetown University, nos Estados Unidos, Marsh dirige o Laboratory on Social & Affective Neuroscience.


Doutora pela Harvard University e ex-pesquisadora de pós-doutorado do National Institute of Mental Health, Marsh utiliza neuroimagem estrutural e funcional, estudos comportamentais, cognitivos e farmacológicos e a investigação de populações especiais, de altruístas extraordinários a pessoas com psicopatia. Ela é autora de mais de 100 publicações revisadas por pares e do livro The Fear Factor (2017). Na entrevista a seguir, concedida por escrito ao Auctoritas Notícias, a pesquisadora explica por que cuidar dos outros pode vir antes da própria empatia e por que simplesmente “treinar empatia” talvez não seja suficiente para produzir mais altruísmo.


Matéria traduzida para o português.


Auctoritas Notícias — Professora, o que torna algumas pessoas extraordinariamente altruístas?


Abigail Marsh — "Essa é uma pergunta que pode ser respondida em diferentes níveis. Primeiro, ser extraordinariamente altruísta significa ajudar alguém de uma forma muito rara ou incomum e que envolve custo ou risco. Pode significar resgatar alguém do perigo, realizar um trabalho humanitário difícil ou doar um órgão ou medula óssea. Há muitas maneiras de ser altruísta".


"As pessoas que praticam esse tipo de altruísmo são, na verdade, parecidas com todas as outras em muitos aspectos. Elas não são “santas” nem “anjos”. Suas personalidades variam como em qualquer outro grupo. Mas possuem algumas características em comum. Uma delas é apresentar níveis mais altos de um traço de personalidade chamado “honestidade-humildade”, que reflete não pensar que você é melhor ou mais importante do que outras pessoas".

Relacionado a isso, os altruístas atribuem subjetivamente mais valor ao bem-estar dos outros do que a pessoa média. Eles continuam valorizando o próprio bem-estar — não são masoquistas —, mas a forma como outras pessoas estão realmente importa mais para eles do que para a maioria.

Podemos medir isso de várias maneiras. Uma delas é observar que altruístas sacrificam mais para beneficiar outras pessoas em tarefas econômicas, como a Social Discounting Task. Essas diferenças parecem refletir diferenças em regiões cerebrais como a amígdala, que tende a ser maior nos altruístas e também mais responsiva ao sofrimento alheio. Como resultado, altruístas demonstram mais empatia pela dor e pelo sofrimento dos outros. Eles não são necessariamente melhores em empatia, mas têm maior probabilidade de empatizar com o sofrimento de outras pessoas, inclusive desconhecidos".


Auctoritas Notícias — Altruístas extremos processam o medo de outras pessoas de maneira diferente?


Abigail Marsh — "Sim. Eles parecem ser mais sensíveis ao medo dos outros. Por exemplo, são melhores em reconhecê-lo corretamente e em empatizar com ele — o que significa que o cérebro apresenta padrões semelhantes quando eles próprios sentem medo e quando observam outra pessoa sentindo medo. Isso pode ocorrer, em parte, porque a amígdala tende a ser maior e mais responsiva ao medo dos outros".


Auctoritas Notícias — O que a psicopatia nos ensina sobre a empatia?


Abigail Marsh — "Curiosamente, os padrões que descrevi acima são o oposto do que observamos na psicopatia. A psicopatia é um transtorno psicológico que afeta entre 1% e 5% das pessoas. Pessoas com psicopatia tendem a ser agressivas e estão dispostas a manipular, usar ou prejudicar outras pessoas para conseguir o que desejam.

Elas apresentam baixos níveis de “honestidade-humildade” e tendem a pensar que são melhores ou mais importantes do que os outros. Não valorizam muito o bem-estar alheio. Suas amígdalas tendem a ser menores que a média e menos responsivas ao medo dos outros. E, espontaneamente, empatizam menos com o sofrimento alheio.

Assim, pessoas altruístas parecem ser “antipsicopáticas”. Ou, dito de outra forma, pessoas com psicopatia e pessoas muito altruístas estão em extremos opostos de um “continuum do cuidado”.


Auctoritas Notícias — A empatia pode ser fortalecida por meio da experiência ou da educação?


Abigail Marsh — "Todos são capazes de empatizar. Você pode empatizar com qualquer emoção que seja capaz de experimentar. Vemos empatia em praticamente todas as espécies sociais, de peixes-zebra e camundongos a cães e seres humanos. Pessoas com psicopatia também conseguem empatizar, embora não empatizem tão bem com emoções como o medo, que elas próprias não sentem intensamente. Isso ocorre porque, em nível neural, empatizar significa gerar uma representação interna do estado da outra pessoa. Se você não consegue experimentar medo, é difícil representar o medo dos outros".


"O que realmente separa pessoas altruístas de pessoas típicas e de pessoas com psicopatia é que elas têm maior probabilidade de empatizar com outras pessoas, inclusive aquelas que não conhecem. Isso provavelmente ocorre porque se importam mais com elas. O cuidado vem antes da empatia. Todos naturalmente empatizam com pessoas com quem se importam".


"Assim, enquanto altruístas empatizam amplamente, pessoas típicas empatizam espontaneamente apenas com algumas pessoas — sobretudo aquelas de quem são próximas — e pessoas com psicopatia empatizam espontaneamente com poucas ou nenhuma pessoa".


"Empatizar no momento certamente nos impulsiona a ajudar. Mas não está claro se um “treinamento de empatia” tornaria as pessoas mais altruístas no longo prazo. Afinal, todos já conseguem empatizar. A pergunta é: elas vão fazê-lo?

Talvez o que realmente precisemos fortalecer seja o quanto as pessoas se importam com os outros, inclusive com aqueles que são diferentes delas e que não conhecem bem. Isso é um desafio maior, mas pode ser feito. Sabemos disso, em parte, porque observamos o cuidado interpessoal aumentar em resposta a determinadas mudanças sociais, como melhorias no bem-estar".


Auctoritas Notícias — O que mais surpreendeu você em suas pesquisas sobre o altruísmo humano?


Abigail Marsh — "Definitivamente fiquei surpresa com o que aprendi sobre empatia. Eu costumava pensar que precisávamos treinar as pessoas para empatizar melhor, mas, com base nos dados que coletei e nos dados coletados por outros pesquisadores, já não acredito que isso vá funcionar".



Abigail Marsh é autora do livro The Fear Factor: How One Emotion Connects Altruists, Psychopaths, and Everyone In-Between, obra em que explora as relações entre medo, empatia, altruísmo e psicopatia.

Conheça o livro The Fear Factor:


Marsh também é cofundadora da Society for the Prevention of Disorders of Aggression, organização dedicada ao avanço da compreensão e prevenção de transtornos relacionados à agressividade.

Conheça a organização:



Quem é Abigail Marsh?

Abigail Marsh é professora do Departamento de Psicologia e do Programa Interdisciplinar de Neurociência da Georgetown University, onde dirige o Laboratory on Social & Affective Neuroscience. É doutora pela Harvard University e realizou pesquisa de pós-doutorado no National Institute of Mental Health. Seu trabalho busca compreender como entendemos o que outras pessoas pensam e sentem, o que nos leva a ajudá-las e o que nos impede de prejudicá-las. Marsh é cofundadora da Society for the Prevention of Disorders of Aggression e autora de The Fear Factor. A pesquisadora informou ao Auctoritas Notícias que não possui Instagram e mantém presença pública no LinkedIn e no X (@aa_marsh).



NOTA EDITORIAL

As respostas foram concedidas originalmente em inglês por Abigail Marsh ao Auctoritas Notícias em 29 de setembro de 2026. A tradução para o português foi realizada para publicação, preservando o conteúdo e o sentido das respostas. A fotografia utilizada foi enviada pela própria entrevistada.

Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.



 
 
 

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