Andrea Gagliarducci fala sobre Bento XVI, jornalismo no Vaticano e a vocação de ensinar
Em entrevista exclusiva ao Auctoritas Notícias, o jornalista Andrea Gagliarducci, que acompanha a Santa Sé há mais de duas décadas, recorda a dimensão humana de Bento XVI, reflete sobre o legado de Joseph Ratzinger e explica por que a honestidade intelectual e a humildade são essenciais para quem cobre o Vaticano.
Por: Eric Rudhiery | Redação Auctoritas Notícias
Analista do Vaticano para o National Catholic Register, do grupo EWTN, e vaticanista da ACI Stampa, Gagliarducci também colabora com jornais italianos e mantém publicações dedicadas aos bastidores da Santa Sé. Nesta conversa concedida por escrito, ele relembra o impacto da morte de João Paulo II em sua trajetória, um encontro de seminaristas com o papa emérito e as homilias que considera essenciais para compreender Bento XVI.

O senhor acompanha o Vaticano como jornalista há muitos anos. Como começou essa trajetória profissional e qual experiência mais mudou sua forma de contar a história da Santa Sé?
Andrea Gagliarducci: “Comecei a trabalhar como jornalista em 2002, mas foi com a morte de João Paulo II, em 2005, que me aproximei cada vez mais do universo do Vaticano. Gostava, interessava-me, e era algo que me vinha com facilidade, no sentido de que não era difícil estudar, recordar e entrar nesse processo. A morte de João Paulo II foi o momento em que pensei que poderia escrever sobre o Vaticano. Depois, minha maneira de contar a história da Santa Sé mudou graças aos encontros. Cada encontro foi significativo e, a cada vez, procurei melhorar alguma coisa.”

Em um artigo de 2015, o senhor relatou o encontro de alguns seminaristas com Bento XVI, então papa emérito. O que considera mais significativo naquele episódio para compreender o lado humano de Joseph Ratzinger?
Andrea Gagliarducci: “Eu conhecia a humanidade de Bento XVI, mas, depois que se tornou papa emérito, essa humanidade pôde se manifestar plenamente, fora dos protocolos. Os seminaristas faziam questão de encontrá-lo. O bispo de Faenza-Modigliana era Mario Toso, que havia servido Bento XVI como secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz; portanto, havia um canal para fazer o pedido. Mas Bento XVI ficou contente em receber os seminaristas. Com eles, voltou a ser professor e formador. Interessava-se pelos livros que estavam estudando e recomendava outros. Ali ficou evidente que a vocação de Bento XVI era, antes de tudo, a vocação de Mestre, com M maiúsculo. E fazia isso com naturalidade; não havia nada de artificial.”

No debate público, Bento XVI é frequentemente lembrado sobretudo como teólogo. Qual aspecto de seu pensamento, de seu pontificado ou de sua relação com as pessoas o senhor considera ainda pouco compreendido?
Andrea Gagliarducci: “Acredito que se tenha confundido a timidez de Bento XVI com uma espécie de esnobismo, e sua firmeza gentil nas ideias, com tradicionalismo. Mas nenhuma dessas duas coisas é verdadeira. Bento XVI foi, de certa forma, vítima da narrativa e daquilo que certa vez chamei de “guerra civil na Igreja”, isto é, o debate que se criou depois do Concílio Vaticano II. Bento XVI foi quem denunciou com força o “Concílio da mídia”, que dizia respeito particularmente a ele mesmo. Mas Bento XVI não era um papa de extremismos, de posições ideológicas e pré-fabricadas. Era um papa que estudava, que queria compreender e que, de todo modo, tinha a certeza da fé. O fato de “Deus, eu te amo” terem sido suas últimas palavras expressa bem essa descrição.”
No trabalho de um vaticanista, como conciliar a necessidade de verificar os fatos, a relação com as fontes e a independência crítica ao tratar de questões religiosas delicadas?
Andrea Gagliarducci: “Acredito que sejam necessárias, sobretudo, honestidade intelectual e humildade epistemológica. A honestidade intelectual de mostrar desde o início de qual ponto de vista se parte, porque sempre existe um ponto de vista; nada é jamais objetivo, nem pode ser.”
Humildade epistemológica significa abertura para escutar os outros e colocar em discussão as próprias ideias. Isso não significa renegar o que se vê ou se observa, mas sempre conceder o benefício da dúvida. Essa abordagem deve servir para alcançar um ponto de vista mais equilibrado. É possível, e necessário, ser crítico, mas não se deve perder de vista todo o mundo de relações humanas que se forma ao redor. Muitas vezes, os erros nas questões religiosas nascem de banalidades, e reconhecer a banalidade — que não vira notícia ou, pelo menos, não é uma notícia interessante — é o primeiro passo para aceitar que é preciso contar melhor os fatos. Nem tudo será perfeito. É preciso aceitar a ideia de errar. Para isso, é necessária honestidade.

Olhando para a memória de Bento XVI nos anos posteriores à sua morte, que episódio, documento ou ensinamento recomendaria aos leitores brasileiros redescobrir para compreender melhor sua figura?
Andrea Gagliarducci: “De Bento XVI, seria necessário ler tudo, mas sempre recomendo dois pequenos volumes: Le Omelie di Pentling (As Homilias de Pentling) e Il Signore ci tiene per mano (O Senhor nos segura pela mão), que contém também algumas homilias inéditas que Bento XVI pronunciou depois da renúncia, nas missas no Mater Ecclesiae. Tive a oportunidade de participar de uma dessas missas. As homilias retratam Bento XVI melhor do que qualquer outra coisa. Eram espontâneas, mas preparadas com anotações, meditadas e depois pronunciadas sem ler um texto, com tranquilidade, voz firme e grande simplicidade. E dizem muito sobre a fé de Bento XVI e sobre como essa fé alimentava toda a sua vida. Mas também dizem muito sobre como um professor sabe ser pastor, e sabe sê-lo precisamente porque seu talento de Mestre é o que lhe permite tornar simples as coisas complexas.”

Sobre Andrea Gagliarducci
Andrea Gagliarducci trabalha para o grupo EWTN como analista do Vaticano no National Catholic Register e como vaticanista na ACI Stampa. Colabora com os jornais italianos Il Messaggero e Il Foglio. Publica análises no blog em inglês Mondayvatican.com e no blog italiano Vatican Reporting, além de colaborar ocasionalmente com Alfa y Omega e Brussels Signal.
Leituras citadas na entrevista
Le Omelie di Pentling: https://www.amazon.it/omelie-Pentling-Benedetto-Joseph-Ratzinger/dp/8820997231
Il Signore ci tiene per mano: https://www.fondazioneratzinger.va/content/fondazioneratzinger/it/news/notizie/pubblicato-il-primo-volume-delle-omelie-inedite-di-benedetto-xvi.html
Notas da redação
Entrevista concedida por escrito diretamente ao Auctoritas Notícias, com respostas originais em italiano e tradução editorial para o português. As fotografias foram disponibilizadas pelo entrevistado, com crédito informado: Josef Rabara / Postoy.
Entrevista: Eric Rudhiery Albuquerque. Tradução e edição: Redação Auctoritas Notícias.



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