Joanna Villamor fala sobre literatura independente nas Filipinas e o amor nos gestos cotidianos
Em entrevista ao Auctoritas Notícias, a escritora filipina Joanna Villamor conta como poemas escritos em cadernos pessoais se transformaram em livros publicados de maneira independente. Autora de Familiar Pathways e Home Is Here, ela fala sobre as experiências que inspiram sua escrita, o amor presente em gestos cotidianos e os desafios de levar a literatura filipina a novos leitores.
Por: Eric Rudhiery | Redação Auctoritas Notícias
Joanna Villamor começou a escrever em cadernos que estavam sem uso em seu quarto. O hábito se transformou em um projeto literário que envolve poesia e prosa, edição independente e participação em eventos de divulgação de livros. Na entrevista concedida por escrito ao Auctoritas Notícias, ela também relata o trabalho necessário para financiar, produzir e promover suas publicações.

O que inicialmente despertou seu interesse pela poesia e pela prosa? O que a levou a publicar seus livros de maneira independente?
Joanna Villamor: “Tudo começou com os cadernos sem uso que estavam empilhados no meu quarto. Um dia, decidi escrever em um deles, principalmente poemas curtos, trágicos e sem muito sentido. Escrevi algumas páginas e, dia após dia, acabei preenchendo o caderno inteiro. As palavras e metáforas começaram a surgir como se eu tivesse aprendido a escrever poesia tão cedo quanto aprendi a pronunciar minha primeira palavra.”
“Então chegou um momento em que já não me satisfazia ser a única leitora dos meus textos. Por que não compartilhá-los com o mundo? Talvez existissem pessoas caminhando com as mesmas feridas que eu.”
“Um ou dois anos depois, decidi reunir tudo o que havia escrito, inclusive as partes que pareciam sem sentido, fazer as edições e melhorias necessárias e pensar no tema recorrente que poderia dar unidade à coletânea. Foi isso que me levou a publicar meu livro de maneira independente.”
“A passagem de um caderno rabiscado para um livro publicado pareceu surreal. E digo independente porque precisei cuidar de tudo: formatação, projeto da capa, lançamento, divulgação, marketing e todas as etapas intermediárias.”
“É claro que algumas pessoas me ajudaram muito nesse processo intenso, e sou imensamente grata a elas, especialmente à minha família, que sempre me apoiou. Também sou grata à 8letters Publishing pelo apoio que me oferece em minha trajetória editorial desde o primeiro livro.”
Quais experiências e ideias inspiraram Familiar Pathways e Home Is Here? O que gostaria que novos leitores compreendessem sobre essas duas obras?
Joanna Villamor: “Sempre acreditei que cada um de nós, seres humanos, tem histórias únicas para contar e feridas que tenta carregar todos os dias. Entretanto, quando alguém lê determinado texto, talvez ao passar pelo feed do Instagram ou encontrar por acaso um livro em uma livraria, pode sentir que aquelas palavras são um espelho do que está vivendo, como se outra pessoa tivesse escrito exatamente aquilo que seu coração está tentando dizer.”
“São essas familiaridades que nos tornam parecidos e conectados. Nesse sentido, nossas histórias e dificuldades não são tão exclusivas assim. Foi essa ideia que deu forma ao meu primeiro livro, Familiar Pathways.”
“Minha segunda coletânea, Home Is Here, foi mais intencional e pessoal. Ela gira em torno da ideia de que estamos cercados de muito amor, mas às vezes deixamos de percebê-lo porque a sociedade nos ensinou que o amor deve ser grandioso, cinematográfico, sacrificial e, principalmente, romântico. Assim, as pessoas crescem procurando esse tipo de amor.”
“A verdade é que os gestos de amor já estão presentes em nossos dias comuns e não se limitam ao romance. O amor está na maneira como nossos familiares esperam por nós antes de começar o jantar para que possamos comer juntos. Está na forma como os amigos guardam um lugar para nós. Nos encontros para tomar café, cheios de histórias compartilhadas, risadas intermináveis e uma linguagem que só nós entendemos.”
“É esse tipo de amor cotidiano que nos sustenta.”
“Talvez o amor nunca devesse ser encontrado apenas nos grandes gestos. Talvez ele sempre tenha vivido silenciosamente nas pessoas que nos escolhem, dia após dia, nos momentos comuns que tantas vezes deixamos passar despercebidos.”
“O lar já está aqui, mas às vezes continuamos procurando nos lugares errados.”


Como decide se uma ideia fica melhor expressa em poesia ou prosa? Como funciona seu processo de escrita e revisão?
Joanna Villamor: “Gosto dessa pergunta. É assim que um escritor se reconhece como tal. Penso que uma ideia se expressa melhor como poesia quando ninguém está falando sobre ela. É como se as pessoas tivessem uma verdade presa na garganta e encontrassem dificuldade para colocá-la para fora. Então, em nome de quem não consegue expressar suas verdades, assumo a responsabilidade de concretizá-las por meio da minha prosa e da minha poesia.”
“Às vezes essas ideias surgem nos momentos mais peculiares do meu dia. Algumas aparecem quando estou lavando a louça. Outras, quando troco a fronha do travesseiro. Houve uma ocasião em que voltei de um funeral, abri o celular, fui direto ao aplicativo de notas e escrevi o texto mais devastador que já produzi.”
“Minha motivação para escrever às vezes também depende da quantidade de café que bebo. Percebi que, sempre que termino uma xícara de latte espanhol ou vietnamita, começo a sangrar sem parar. Só que não é sangue: são palavras.”
“Quanto à revisão, meu processo é bastante simples. No primeiro rascunho, deixo todas as palavras fluírem sem me preocupar com gramática, pontuação, estrutura ou mesmo ortografia. O importante é escrever tudo o que quero incluir, especialmente as frases que fico reformulando na cabeça, o pensamento que me incomoda há dias e a metáfora que apareceu de repente.”
“Depois, quando termino, vem a edição. Procuro reler o texto muitas vezes, até corrigir seus erros e imperfeições. Ele funciona melhor como poema ou, por sua musicalidade, deveria ser prosa?”
“Uso o Grammarly para correções gramaticais, mas às vezes mantenho meu próprio tom, porque as sugestões da ferramenta alteram o ritmo do texto. Na última etapa, por vezes envio o que escrevi aos meus amigos mais próximos e pergunto se eles conseguem se identificar com aquilo, se vale a pena compartilhar com o mundo. É claro que sempre recebo comentários positivos.”
A publicação independente oferece liberdade criativa, mas também traz responsabilidades além da escrita. Quais foram os principais desafios e recompensas, especialmente na busca por leitores?
Joanna Villamor: “Escolhi a autopublicação porque ela me deu liberdade e controle sobre meu trabalho. Entretanto, é um empreendimento caro e exaustivo. Terminar o livro é apenas a ponta do iceberg.”
“Minha maior dificuldade foi encontrar pessoas e recursos para melhorar o livro e torná-lo mais bonito. Precisei procurar um revisor e um editor, um designer gráfico para a capa e uma editora que cuidasse do ISBN, da formatação final e de alguma divulgação, ainda que limitada. Tudo isso exigia dinheiro, então levei muito tempo para economizar. Minha família até me emprestou uma quantia razoável para que meu sonho pudesse acontecer.”
“E o trabalho ainda não tinha terminado, porque publicar o livro não é o fim. Embora eu tenha pago por alguns serviços de promoção e visibilidade, isso não é suficiente. Preciso me esforçar ainda mais para me apresentar às pessoas e levar meus livros a um público maior.”
“Como não estou acostumada à exposição pública nem sou muito ativa nas plataformas de redes sociais, é difícil alcançar mais leitores. Felizmente, fui convidada pelo National Book Development Board para uma feira regional de livros na cidade de Dumaguete, nas Filipinas, em julho de 2026. Tive a oportunidade de me apresentar e de mostrar meus trabalhos ao público que estava lá.”
“Apesar de tudo, ver meus livros sendo queridos e valorizados pelas pessoas me dá vontade de publicar mais. Isso mostra que o esforço coletivo valeu a pena.”
“Embora eu e outros autores filipinos que publicam de forma independente enfrentemos dificuldades para dar visibilidade aos nossos livros e chegar a mais leitores, acredito que a publicação independente seja um passo importante para promover a literatura filipina e apresentar novos autores de diferentes partes do país.”
“No momento, faço o possível para criar conteúdo de vez em quando no Instagram e no Facebook. Continuo escrevendo prosa e poesia acompanhadas de imagens e compartilhando esses textos nas redes sociais, onde algumas pessoas ainda os apreciam e se identificam com eles.”

Que papel espera que a literatura filipina independente desempenhe nas conversas além das Filipinas? Em que projetos está trabalhando agora?
Joanna Villamor: “A literatura filipina é vasta e muito produtiva. Poesia, romances, lendas, contos populares, epopeias, diários e todas as outras formas de literatura do país merecem ser reconhecidos e valorizados.”
“Há muito a aprender, admirar e descobrir nessa riqueza cultural, sem falar nos escritores e criadores talentosos por trás de cada obra. Espero que o National Book Development Board continue apoiando e sustentando suas iniciativas para que a literatura filipina prospere ainda mais e seja reconhecida além de seu país de origem.”
“Por enquanto, estou concentrada em desenvolver estratégias para alcançar mais leitores e divulgar meus livros, especialmente o mais recente, Home Is Here.”
“É claro que haverá outro livro. No entanto, primeiro quero aproveitar ao máximo todas as oportunidades e recursos de que disponho para promover as obras existentes, antes de correr para lançar mais uma. Acredito que Home Is Here merece tocar e inspirar mais pessoas.”
“O livro precisa chegar a mais leitores, para que percebam que são profundamente amados sem precisar procurar um lar que já foi construído dentro deles.”
Sobre Joanna Villamor
Joanna Villamor é uma escritora filipina de poesia e prosa que publica seus livros de forma independente. É autora de Familiar Pathways e Home Is Here. Sua experiência editorial inclui produção e divulgação dos próprios livros e participação em uma feira regional promovida pelo National Book Development Board, em Dumaguete, em julho de 2026. Em suas obras, aborda experiências pessoais, dores compartilhadas e o amor presente nas relações cotidianas.
Página de links da autora: https://linktr.ee/jo.spilledthoughts
Notas da redação
Entrevista concedida por escrito ao Auctoritas Notícias. As cinco respostas foram fornecidas originalmente em inglês pela escritora e traduzidas para o português do Brasil, preservando o sentido, os exemplos e a sequência das declarações.
Fotografias e imagens de capa fornecidas pelo responsável pela publicação.
Entrevista: Eric Rudhiery Albuquerque. Tradução e edição: Redação Auctoritas Notícias.



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