Fernando de León reflete sobre literatura, memória e o ofício de contar histórias
Em entrevista exclusiva ao Auctoritas Notícias, escritor mexicano aborda o início da carreira literária, a criação de narrativas e a importância de preservar a memória de quem conta a própria história.
Por Eric Rudhiery | Tradução e edição: Redação Auctoritas Notícias
O escritor mexicano Fernando de León começou a publicar ainda jovem, quando um texto enviado a uma página estudantil de jornal apareceu impresso e mudou sua relação com a escrita. Décadas depois, ele segue explorando os limites entre imaginação, memória, realidade e experimentação literária.
Nascido em Guadalajara, no estado mexicano de Jalisco, em 1971, De León é narrador e ensaísta, autor de catorze livros entre contos, romances e ensaios. Entre suas obras estão La estatua sensible, premiada em 1995, Apuntes para una novísima arquitectura, vencedora do Prêmio Nacional de Conto Agustín Yáñez em 2004, Manual de comportamiento fantástico, lançado pela espanhola EOLAS em 2022, e If, publicado em 2025 pela Universidade Autônoma de Nuevo León. La sana teoría, originalmente editado no Peru em 2006, recebeu nova edição no México em 2026.
Desde 2000, o autor coordena Arqueología del Recuerdo, espaço dedicado a assessoria e oficinas de escrita autobiográfica. Já integrou o Sistema Nacional de Creadores de Arte, do México, e atualmente vive na Cidade do México.
Em entrevista escrita ao Auctoritas Notícias, traduzida do espanhol para o português, Fernando de León conta como descobriu a literatura, discute o cuidado necessário ao reconstruir histórias de vida e comenta seus projetos mais recentes.
Como começou sua relação com a escrita e quais experiências a transformaram em parte fundamental de sua vida?
Fernando de León: “Quando eu estava no ensino médio, houve um convite aberto para colaborar com uma página juvenil de um jornal regional, coordenada por alunos da mesma universidade que eu frequentava. Eu era um leitor iniciante, que gostava de histórias de fantasmas e detetives, mas nunca tinha pensado em escrever nem em publicar alguma coisa. Só para experimentar, escrevi um texto e o entreguei a eles. Uma semana depois, foi publicado, e o impacto de ver meu texto impresso mudou minha vida.”
“Aquele primeiro texto não era conto, poema nem ensaio; não tinha um gênero definido. Lembro que tentava expressar uma insatisfação com minha realidade e comigo mesmo. Começava assim: 'Às vezes penso que estou louco...'.”
“De repente, pessoas que eu não conhecia liam e comentavam meu texto, e aquilo me impressionou profundamente: escrever e publicar significa ter a possibilidade de uma conversa abstrata e fora do tempo.”
“Em uma mistura de soberba e estímulo intelectual, escrever e publicar se torna um vício. Por isso comecei a escrever e a propor colaborações para o jornal toda semana. Para cada texto aceito, dois eram rejeitados, mas fui muito persistente e logo aprendi que a rejeição e, sobretudo, a correção são partes fundamentais do ato de escrever. Entretanto, a obstinação ou a edição de um texto para publicação não fazem de alguém um escritor. Ao contrário, só tive certeza de que já era escritor quando continuei escrevendo e aperfeiçoando o que escrevia, mesmo sem nenhuma garantia de publicação.”
Depois de tantos anos dedicado à narrativa, como mudou sua maneira de encontrar e contar uma boa história?
“Justamente por ter atravessado muitas épocas, experimentei várias estratégias. No começo, eu sentia que imaginava completamente minhas histórias ou que elas vinham dos meus sonhos e pesadelos. Mas, em um nível mais consciente, percebi que as histórias vêm dos sentidos, da observação, mas também do cinema e da pintura; daquilo que ouvimos, seja ruído, música ou voz; do que comemos e tocamos. As histórias vêm, sobretudo, dos cheiros.”
“Tentei escrever por encomenda, sem bons resultados. Escrevi alguns livros seguindo um projeto e uma pesquisa documental prévia. Escrevi a partir de outras obras. Cada vez mais me percebo acompanhado pelos diferentes elementos da criação, e a única coisa que reconheço como verdadeiramente minha é a vontade de fazer isso.”

Em seus textos convivem memória, imaginação e observação da realidade. Como decide o que pertence a cada história?
“É como montar um quebra-cabeça, e sou maníaco por organização. Estou convencido de que cada peça tem seu lugar. Nessa teoria dos conjuntos, sei que o conjunto memória se distingue do conjunto realidade e que a imaginação surge da interseção entre ambos, porque tanto a realidade observada quanto a memória podem ser distorcidas pela imaginação.”
“Minha única bússola é a meta arbitrária que pretendo alcançar. Se estou tentando escrever uma trama que tenha um mecanismo fantástico, precisarei de tudo aquilo que consideramos real para poder rasgá-lo. Se, por outro lado, me interessa escrever uma história realista, sacrificarei os sonhos e as fantasias. Não se trata de eliminar elementos dessa equação, apenas de lhes dar pesos diferentes e inclinar a balança narrativa para o lado que eu desejar.”
Você também trabalhou com biografias e memórias. O que aprendeu ao reconstruir as experiências de outras pessoas?
“Entendo que a ficção é a manipulação de uma história com uma intenção literária. A biografia é a arte de respeitar as lembranças, de convertê-las em linguagem com a menor perda possível. A escolha das palavras que alguém faz ao contar a própria vida por escrito tem uma transparência cuidadosamente pensada. Leio esses relatos e tento ajudar as pessoas a encontrar clareza narrativa, mas nunca tomo seu lugar como narradoras daquilo que só cada uma conhece: a própria vida.”
“Concordo com Marcel Schwob quando afirma, em A arte da biografia, que 'a arte não classifica, desclassifica', e que cada vida é única e digna de ser contada. Também concordo com Philippe Lejeune ao aceitar sem hesitação o pacto autobiográfico, que estabelece que não devemos questionar aquilo que alguém relata como lembrança. Propor a uma pessoa uma estrutura para contar sua vida é olhar para o espelho e responder introspectivamente: 'O que é mais urgente e indispensável contar da minha vida?'.”
“O que aprendi? Que nem todos escutam o chamado da ficção, mas qualquer pessoa pode assumir o desafio de escrever sua autobiografia.”

Qual livro ou projeto melhor representa o momento criativo que você vive e o que gostaria de explorar nos próximos trabalhos?
“O impulso criativo é variado, como um carnaval que, para mim, tem um pouco de tudo: tramas de fantasia ou de conjectura histórica, microcontos ou romances, ensaios e memórias. Por isso meus livros têm dificuldade para se encaixar em um gênero mais do que em outro, ou para pertencer a algum nicho, assim como aconteceu com meu primeiro texto.”
“Em meus livros mais recentes, consegui reunir textos afins. Em Manual de comportamiento fantástico, publicado recentemente na Espanha, juntei apenas contos de caráter fantástico. Em If, reuni contos que partem de episódios históricos e literários.”
“No momento estou escrevendo algo com características policiais, um gênero muito divertido e trabalhoso. Em breve, quero explorar uma distopia em forma de romance, porque não há nada mais misterioso e onírico do que imaginar o futuro.”
Ao relembrar o primeiro texto publicado, Fernando de León descreve a escrita como um diálogo possível com leitores que ainda não conhece. A persistência diante das recusas e a revisão do próprio trabalho, segundo ele, marcaram sua formação como autor.
Seu trabalho com autobiografias e sua produção de ficção apresentam caminhos complementares: a atenção ao relato de cada pessoa e a liberdade de combinar realidade e imaginação. O escritor também antecipa o interesse em desenvolver uma narrativa policial e explorar o romance distópico.
Sobre Fernando de León
Fernando de León nasceu em Guadalajara, Jalisco, México, em 1971. Narrador e ensaísta, é autor de catorze livros de contos, romances e ensaios. Recebeu o Prêmio Nacional de Conto dos XX Jogos Florais de San Román, em 1995, por La estatua sensible, e o Prêmio Nacional de Conto Agustín Yáñez, em 2004, por Apuntes para una novísima arquitectura.
Entre seus livros estão Narrativas verdaderas (2021), Manual de comportamiento fantástico (2022), If (2025) e uma nova edição de La sana teoría, publicada em 2026. Desde 2000, coordena Arqueología del Recuerdo, espaço de assessoria e oficinas de escrita autobiográfica. Já integrou o Sistema Nacional de Creadores de Arte e atualmente mora na Cidade do México.
Notas da redação
Entrevistado: Fernando de León | Entrevista e texto: Eric Rudhiery | Tradução e edição: Redação Auctoritas Notícias | Veículo: Auctoritas Notícias | Material recebido: 19 de outubro de 2026.
Fotografias: Javier Narváez. Três imagens encaminhadas e autorizadas pelo entrevistado, sendo uma utilizada na capa e duas ao longo da reportagem.
As respostas foram fornecidas diretamente pelo entrevistado em espanhol. A tradução para o português inclui ajustes editoriais de fluidez e clareza.
Responsável editorial: Eric Rudhiery Albuquerque, diretor de Marketing do Auctoritas Notícias.


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