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Reverendo Bruno Barroso analisa as origens da Reforma Protestante e seu legado 509 anos depois

Foto do escritor: Eric Rudhiery
Eric Rudhiery
há 9 horas
7 min de leitura

Pastor da Igreja Reformada em Ponta Grossa revisita o contexto europeu do século XVI, o papel dos reformadores e as transformações religiosas e sociais do movimento.


Por Eric Rudhiery | Edição: Redação Auctoritas Notícias


Às vésperas de 31 de outubro, data tradicionalmente associada ao início da Reforma Protestante, a trajetória de Martinho Lutero e o alcance das transformações do século XVI voltam ao centro das reflexões sobre a história do cristianismo. Em 2026, são 509 anos desde a divulgação das 95 teses que se tornaram um dos marcos mais conhecidos desse processo.


Para examinar o cenário que precedeu a Reforma, seus protagonistas e o impacto da circulação das ideias religiosas pela Europa, o Auctoritas Notícias conversou com o Reverendo Bruno Barroso, pastor da Igreja Reformada em Ponta Grossa (PR), teólogo, professor e escritor. Seu ministério e sua atuação no ensino teológico estão ligados à formação cristã, à tradição reformada continental e ao estudo das Escrituras.


Barroso já participou do jornal em agosto, quando analisou a história do presbiterianismo no Brasil. Nesta nova entrevista, o reverendo recupera sua aproximação pessoal com a tradição reformada e apresenta sua leitura sobre Lutero, Zuínglio e Calvino, a imprensa, as traduções bíblicas e as consequências do movimento para a Igreja e a sociedade. As interpretações históricas e doutrinárias apresentadas nas respostas são de responsabilidade do entrevistado.


Reverendo Bruno Barroso durante exposição bíblica na Igreja Reformada em Ponta Grossa.
Reverendo Bruno Barroso durante uma ministração. Imagem: arquivo pessoal.

Confira a entrevista:


Reverendo, como surgiu seu interesse pela história da Reforma Protestante e o que esse movimento representa, pessoalmente, para sua trajetória de fé e seu ministério pastoral?


“Meu interesse pela história da Reforma Protestante surgiu de maneira muito providencial, exatamente no meu primeiro contato com a disciplina de História da Igreja, ainda nos tempos de seminário. Naquela época, eu ainda não era reformado. Minha formação e vivência pertenciam à esfera pentecostal. No entanto, quando fui exposto à história da Reforma e à profundidade da fé reformada, o impacto foi inevitável. Ao compreender a ênfase na soberania de Deus, a centralidade absoluta das Escrituras e a doutrina da justificação somente pela graça, mediante a fé, foi como se escamas caíssem dos meus olhos. Dali para a frente, minha caminhada seguiu, sem volta, em direção à tradição reformada continental.


"Pessoalmente, a Reforma representa minha própria libertação espiritual das teologias focadas no esforço humano."


"Ministerialmente, ela é a âncora do meu pastorado. Ela me lembra todos os dias de que a Igreja não precisa de inovações, pragmatismo ou espetáculos. Ela precisa da pura pregação da Palavra, da correta administração dos sacramentos e de um pastoreio fiel. A Reforma me ensinou que meu trabalho não é inventar nada novo, mas expor todo o conselho antigo e imutável de Deus.”


Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero tornou públicas suas 95 teses, episódio tradicionalmente reconhecido como marco da Reforma Protestante. Como era o contexto religioso e social da Europa naquele período e o que levou ao surgimento do movimento?


“O final da Idade Média e o início do século XVI formavam um cenário de profunda ansiedade espiritual e efervescência social."


"Religiosamente, a Europa estava sob o domínio de uma Igreja Romana que, infelizmente, havia se afastado drasticamente da simplicidade do Evangelho. O papado enfrentava uma grave crise moral e política, e a teologia vigente ensinava que a salvação era um esforço cooperativo, isto é, a graça de Deus somada aos méritos e às obras humanas. Isso gerava um povo aterrorizado, que nunca sabia se havia feito o suficiente para ser salvo. O estopim foi a venda abusiva de indulgências, documentos papais relacionados à remissão das penas temporais devidas pelos pecados, inclusive as associadas ao purgatório. Elas eram comercializadas de maneira abusiva por figuras como João Tetzel para financiar a construção da Basílica de São Pedro."


"Socialmente, a Europa passava pelo Renascimento. O lema renascentista Ad fontes, que significa “de volta às fontes”, estimulou o retorno aos textos originais da Antiguidade, incluindo a Bíblia em hebraico e grego. Havia também o surgimento de um sentimento nacionalista e uma crescente insatisfação econômica e política. Lutero, agindo inicialmente com o coração de um pastor preocupado com a alma de suas ovelhas, que estavam comprando “falsas garantias de perdão”, publicou as 95 Teses para um debate acadêmico. Ele não queria dividir a Igreja, mas purificá-la. Contudo, aquele gesto associado à publicação das teses em Wittenberg foi a faísca que encontrou uma Europa coberta de pólvora.”


Reverendo Bruno Barroso lê as Escrituras durante encontro na igreja.
Reverendo Bruno Barroso durante a leitura das Escrituras. Imagem: arquivo pessoal.

Além de Martinho Lutero, outros nomes, como Ulrico Zuínglio e João Calvino, tiveram participação importante na Reforma. Quais foram as contribuições desses reformadores e por que é importante compreender a Reforma como um movimento histórico amplo, e não como a obra de uma única pessoa?


“A Reforma Protestante nunca foi o projeto de um único homem. Foi uma grandiosa sinfonia orquestrada pelo Espírito Santo, utilizando múltiplos instrumentos em diferentes regiões. Lutero foi o pioneiro, o homem do rompimento heroico. Mas a Reforma precisava ser estruturada e aplicada a todas as áreas da vida e da Igreja."


"Ulrico Zuínglio, na Suíça, foi fundamental na Reforma da adoração. Antes mesmo de ouvir falar de Lutero, Zuínglio começou a pregar expositivamente o Evangelho de Mateus em Zurique, abandonando o calendário litúrgico romano, e estabeleceu o princípio de que, no culto, só devemos fazer aquilo que a Bíblia expressamente ordena."


"João Calvino, atuando um pouco depois em Genebra, foi o grande sistematizador do movimento. Sua obra magistral, As Institutas da Religião Cristã, deu à Reforma um corpo teológico robusto e coerente, uma verdadeira espinha dorsal. Calvino também estruturou o governo da Igreja, o cuidado social e o entendimento profundo da soberania de Deus sobre toda a criação."


"Compreender a Reforma como um movimento amplo nos protege da idolatria a um líder e nos ajuda a ver que o verdadeiro reformador da Igreja é o próprio Cristo, que usou o intelecto de Calvino, a ousadia de Lutero e o zelo de Zuínglio para resgatar sua noiva.”


Comunidade acompanha mensagem do Reverendo Bruno Barroso em Ponta Grossa.
Comunidade acompanha uma mensagem do reverendo Bruno Barroso durante o culto. Imagem: arquivo pessoal.

Como as ideias da Reforma se espalharam pela Europa? Que papel tiveram a imprensa, as traduções da Bíblia para as línguas do povo e os debates religiosos daquela época?


“A Reforma Protestante foi, sem exagero, o primeiro grande movimento de mídia da história. A providência divina preparou o cenário com a invenção da prensa de tipos móveis por Johannes Gutenberg. Sem a imprensa, Lutero provavelmente teria sido silenciado e queimado em uma fogueira local, como ocorreu com John Wycliffe e Jan Hus décadas antes. A imprensa permitiu que as 95 Teses e os panfletos teológicos se espalhassem rapidamente pela Europa em questão de semanas."


"Mas a maior revolução veio com as traduções da Bíblia. Até então, a Bíblia era lida principalmente em latim no contexto da Igreja ocidental, idioma que grande parte do povo comum não compreendia. Quando Lutero traduziu o Novo Testamento para o alemão e nomes como William Tyndale fizeram o mesmo para o inglês, a Palavra de Deus foi devolvida ao povo. A teologia saiu dos mosteiros e invadiu as mesas de jantar, as oficinas e as praças."


"Os debates públicos, conhecidos como disputações, também tiveram um papel crucial. Eventos como o Debate de Leipzig e o Colóquio de Marburgo funcionaram como arenas nas quais as ideias eram examinadas à luz das Escrituras, forçando as lideranças religiosas e políticas a tomar posições claras. O conhecimento teológico deixou de ser monopólio do clero.”


Reverendo Bruno Barroso diante de uma Bíblia aberta durante ministração.
Pastor Bruno Barroso. Imagem: arquivo pessoal.

Passados 509 anos de seu marco histórico, quais foram as principais transformações provocadas pela Reforma na vida da Igreja e na sociedade? Que aspectos desse legado continuam relevantes hoje?


“Na Igreja, a Reforma resgatou o puro Evangelho, devolveu às Escrituras sua posição de autoridade suprema, expressa no princípio Sola Scriptura, e reafirmou que a salvação não pode ser comprada nem merecida, mas é recebida somente pela fé, somente pela graça e somente em Cristo. Além disso, a Reforma recuperou o sacerdócio universal dos crentes, ensinando que não há cristãos de segunda classe. Todos têm acesso direto a Deus por meio de Cristo, sem a necessidade de outros mediadores para a salvação."


"Na sociedade, as transformações foram significativas. A Reforma impulsionou a alfabetização, afinal, se todo crente precisa ler a Bíblia, é dever da sociedade fundar escolas. Ela também redefiniu a ética do trabalho. O trabalho do padeiro, do agricultor ou do médico passou a ser visto como uma vocação divina, tão digna quanto a do pastor. A família também foi valorizada como espaço de instrução moral e teológica, e o lar recebeu maior destaque na formação cristã."


"Hoje, passados 509 anos, esse legado é mais urgente do que nunca. Vivemos tempos em que a Igreja evangélica contemporânea, em certos segmentos retornaram a práticas semelhantes às criticadas pelos reformadores, como a busca por mediadores humanos supostamente infalíveis, a exemplo dos chamados superapóstolos, a mercantilização da fé, com pessoas comprando bênçãos como se fossem novas indulgências, e um triste analfabetismo bíblico. A Reforma nos chama ao princípio Ecclesia Reformata et Semper Reformanda secundum Verbum Dei, que significa “Igreja Reformada, sempre se reformando segundo a Palavra de Deus”.


"O legado da Reforma nos convoca, hoje, a tirar o pó de nossas Bíblias, a confiar na suficiência de Cristo e a viver todas as áreas da nossa vida, do púlpito à profissão, para a glória de Deus somente, conforme o princípio Soli Deo Gloria.”


Ao revisitar os acontecimentos de 1517 e as transformações que se seguiram, Bruno Barroso apresenta a Reforma como um processo histórico cuja repercussão ultrapassou os debates entre líderes religiosos. Na avaliação do reverendo, o acesso às Escrituras, a formação teológica e a compreensão da vocação cristã continuam relevantes para o debate sobre a identidade das igrejas.


Da experiência pessoal do pastor às disputas de ideias que marcaram a Europa do século XVI, a entrevista evidencia como a Reforma permanece presente nas discussões sobre fé, educação e vida em comunidade. Para Barroso, conhecer esse passado também significa examinar as práticas contemporâneas à luz das convicções que orientaram os reformadores.


Sobre o entrevistado

O Reverendo Bruno Barroso é pastor da Igreja Reformada em Ponta Grossa (PR), teólogo, professor e escritor.

Instagram: @pr.bruno.barroso.

Igreja Reformada em Ponta Grossa: @igrejareformadapg.


Editado e revisado pelo diretor de Marketing, Eric Rudhiery Albuquerque.


 
 
 

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