Veronica Lamarche explica por que confiar exige aceitar a vulnerabilidade nas relações
Confiar em alguém envolve a possibilidade de se decepcionar, e é justamente essa incerteza que torna a confiança necessária. Para a psicóloga Veronica Lamarche, da Universidade de Essex, no Reino Unido, os relacionamentos são fontes importantes de bem-estar, mas também expõem as pessoas a riscos emocionais. Sua pesquisa examina como a vulnerabilidade, as experiências anteriores e a disposição de se reconectar moldam os vínculos afetivos.
Por: Eric Rudhiery | Redação Auctoritas Notícias
Em entrevista ao Auctoritas Notícias, a professora sênior e diretora de Educação do Departamento de Psicologia da Universidade de Essex explica por que a insegurança pode despertar dúvidas mesmo quando há carinho, como a confiança se constrói ao longo do tempo e por que confiar nunca deve significar aceitar abusos. As respostas foram traduzidas do inglês para o português, preservando seu sentido.
O que a levou a estudar confiança e vulnerabilidade nos relacionamentos próximos? O que considera mais interessante nesse campo?
Veronica Lamarche: “Considero muito interessante estudar os relacionamentos e como as pessoas mantêm vínculos estáveis e satisfatórios ou se afastam daqueles que lhes fazem mal. Nossas relações estão ligadas a tantos aspectos da vida: ajudam a moldar o senso de quem somos e podem oferecer oportunidades de realização pessoal; influenciam nosso desempenho profissional, são centrais para a saúde e o bem-estar e também podem ser experiências gratificantes, que nos fazem sentir valorizados, cuidados e amados.”
“Passei a me interessar por confiança e vulnerabilidade nos relacionamentos porque eles apresentam um paradoxo: ao lado de todos os possíveis benefícios, existem riscos, como abandono, abuso e exploração. A confiança é a base das relações, mas confiar também é aceitar a vulnerabilidade e acreditar que encontraremos na outra pessoa aquilo que desejamos, e não aquilo que tememos. Acho fascinante a tensão psicológica entre equilibrar esses riscos e recompensas interpessoais e como ela influencia nosso comportamento.”
Por que a incerteza às vezes é tão difícil em um relacionamento amoroso, mesmo quando existe afeto genuíno?
Veronica Lamarche: “Os seres humanos têm uma predisposição psicológica a preferir a certeza à incerteza. A incerteza funciona como um sinal de alerta de que talvez não possamos ter 100% de segurança de que estamos protegidos. Mesmo quando há afeto genuíno, ela pode despertar a preocupação de que nem tudo esteja tão bem quanto imaginávamos e lançar dúvidas sobre a outra pessoa e suas intenções.”

O que a pesquisa psicológica revela sobre como as pessoas constroem e mantêm a confiança ao longo do tempo?
Veronica Lamarche: “Confiança gera confiança. Como os relacionamentos envolvem riscos e recompensas, as pessoas precisam estar dispostas a continuar tentando se conectar com seus parceiros — especialmente em momentos de vulnerabilidade ou incerteza —, em vez de ceder à tentação de se proteger contra novas vulnerabilidades afastando-se da relação.”
“Quando as pessoas conseguem priorizar a conexão em vez da autoproteção, sinalizam ao parceiro uma disposição mútua de responder às necessidades um do outro e de interpretar com benevolência suas intenções. Isso motiva o outro a agir de maneira semelhante.”
Como experiências de relacionamentos anteriores podem influenciar as expectativas que levamos para novas relações?
Veronica Lamarche: “Confiar significa sentir segurança nas previsões que fazemos sobre como nossos parceiros atuais agirão e acreditar que eles se comportarão de maneira digna dessa confiança. Mas nem todos tivemos, no passado, relações consistentemente cuidadosas ou acolhedoras.”
“Essas experiências anteriores influenciam a maneira como olhamos para o futuro e interpretamos a vulnerabilidade. Assim, podemos ficar mais sensíveis aos riscos, dar menos importância aos benefícios da conexão e ter maior dificuldade em aceitar a vulnerabilidade.”
Que equívoco comum sobre confiança ou dependência emocional você gostaria que o público reconsiderasse?
Veronica Lamarche: “Confiar não significa nunca ter os sentimentos feridos, nem tolerar comportamentos abusivos ou depreciativos. Pelo contrário: a confiança só é possível em condições de incerteza. Se tivermos 100% de certeza sobre o que outra pessoa sente ou sobre como ela agirá, a confiança não será necessária.”
“Trata-se, em vez disso, de acreditar que o parceiro se importa conosco e leva em consideração nossos melhores interesses, mesmo depois de uma discussão, frustração ou decepção. Isso abre caminho para que ambos busquem reparar a relação.”
Sobre Veronica Lamarche
Veronica Lamarche é professora sênior (Senior Lecturer) e diretora de Educação (Director of Education) do Departamento de Psicologia da Universidade de Essex, no Reino Unido. Sua atuação acadêmica inclui o estudo da confiança, da vulnerabilidade e dos relacionamentos próximos, especialmente os efeitos da incerteza e das experiências anteriores sobre os vínculos afetivos. Informações profissionais: veronicalamarche.com.
Notas da redação
Entrevista concedida por escrito ao Auctoritas Notícias. As declarações foram redigidas originalmente em inglês e traduzidas para o português pela redação, buscando preservar o conteúdo e as ideias da entrevistada. A identificação profissional foi conferida com as informações encaminhadas pela própria pesquisadora.
Fotografia original em alta resolução: imagem enviada por Veronica Lamarche para utilização editorial, empregada na capa e no corpo da matéria.
Entrevista, tradução, edição e revisão: Eric Rudhiery Albuquerque | Redação Auctoritas Notícias.



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